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Mural da artista indígena amazonense Sãnipã ficará exposto até janeiro

O Instituto Ling, em Porto Alegre, apresenta até o dia 25 de janeiro de 2025 a obra artística inédita da artista visual indígena amazonense Sãnipã, do povo Apurinã e Kamadeni. Criada ao vivo, a obra reflete a conexão da artista com a natureza e a mitologia do povo Apurinã, sendo uma expressão da identidade indígena e das questões ambientais que afetam a Amazônia.

A intervenção artística faz parte de um projeto que busca aproximar o Rio Grande do Sul das outras culturas brasileiras, nesta edição com destaque para a amazônica. Sãnipã trouxe em seu mural temas como a mitologia indígena e os impactos das mudanças ambientais na Amazônia

Inspirado no mito de Sãnyky, a Rainha da Floresta, figura central nas tradições do povo de Sãnipã, aparece no mural para proteger e alimentar a natureza e seus seres. O mural, de 6 metros de largura e quase 3 metros de altura, explora a importância da conservação ambiental e dos saberes ancestrais, com cores vibrantes e formas orgânicas que traduzem a mitologia e o universo do povo Apurinã.

A criação da obra teve início no dia 25 de novembro e foi concluída no dia 29, com o público acompanhando de perto todo o processo ao longo do horário de funcionamento do Instituto Ling. A intervenção faz parte do projeto “Amazônias, no tremor das vidas”, que visa aproximar o Rio Grande do Sul da cultura amazônica e promover a interculturalidade, convidando jovens artistas da região Norte do Brasil para apresentarem suas obras em Porto Alegre.

Apresentação da obra

No sábado, 30 de novembro, a artista participou de um bate-papo com a curadora do projeto, Vânia Leal, no qual compartilhou detalhes sobre o processo criativo e as inspirações para a obra. Durante a conversa, Sãnipã destacou o impacto das mudanças ambientais em sua região, pontuando o conflito entre a natureza e as transformações causadas pela ação humana, e a mensagem que deseja transmitir com o mural.

“Quero que todos possam conhecer a nossa história, nossa mitologia. No contexto que estou trazendo nessa história da Sãnyky, é que lá no Sul do Amazonas, não só no sul do Amazonas, mas em Manaus, Manaus inteira sofreu com a seca. A minha região, Lábrea, sofreu com as queimadas, foram muitas queimadas. Então esse é o tema. Tem um céu amarelo e vermelho, com a questão da queimada, a questão da briga das coisas, é uma briga com o universo e com o tempo, que as pessoas também transformam, como as pessoas transformam os lugares. Que isso venha a ser uma consciência para que as pessoas não façam tantas queimadas. Que não sou só eu, na aldeia, que sofre, todo mundo sofre”, afirmou a artista.

A curadora do projeto, Vânia Leal, destaca que a iniciativa busca sensibilizar o público sobre as complexas questões relacionadas à Amazônia. “Amazônias, no tremor das vidas é um disparador desta perspectiva plural, com artistas que desentravam a compreensão da interculturalidade, dos contatos, das provocações e das possibilidades nesses espaços imensos quando a Amazônia se torna o centro de preocupação da humanidade”, explica em seu texto curatorial.

O diretor da Manaus Amazônia Galeria de Arte, representante da artista, Carlysson Sena, destacou a importância da participação de Sãnipã no projeto, ressaltando como a observação de seu processo criativo é uma oportunidade para levar o público a refletir sobre os temas abordados pela obra.

“Sãnipã, ao criar seu mural ao vivo no Instituto Ling, ofereceu ao público uma experiência de imersão na cultura indígena. A participação da Sãnipã no projeto também foi uma oportunidade para todos acompanharem de perto o processo criativo de uma obra que reflete questões fundamentais para o nosso tempo, como a preservação ambiental. Essa obra, com sua conexão direta à natureza e aos mitos do seu povo, traz um olhar atual e urgente sobre esse tema”, afirmou.

A visitação ao mural é gratuita e está aberta ao público até o dia 25 de janeiro de 2025, antes de ser apagado para dar espaço à próxima obra, do artista Bonikta, do Pará, próxima contemplada com o Projeto Ling Apresenta.

Mais sobre a artista

Sãnipã tem se destacado em exposições nacionais e internacionais, dando voz às culturas originárias em um contexto contemporâneo. Na 15ª Bienal Naïfs do Brasil, recebeu o prêmio Destaque-Aquisição, com a obra Totem Apurinã Kamadeni, adquirida pelo Acervo Sesc, sendo a primeira mulher indígena amazonense na coleção. Suas principais exposições incluem Nipetirã, O Sopro Tribal sobre Outros Olhares, na Galeria do Largo; Amazônia Sou Eu!, em Nova Iorque; e a individual Dança Sagrada do Povo Apurinã, no Museu Amazônico. Também foi selecionada pela curadoria do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) para compor a coletiva Histórias da Dança em 2020, com a obra em acrílica sobre tela, 60 cm de diâmetro, Dança e Mito, de 2008. Sãnipã foi umas das mulheres indígenas amazonenses em destaque com quatro obras suas na 1ª Bienal das Amazônias, em Belém, no ano de 2023.

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