
A violência contra educadores se tornou rotina no Brasil. Pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra que 93% dos professores já foram vítimas ou presenciaram casos de perseguição, censura ou intimidação dentro das escolas e universidades.
O levantamento analisou respostas de mais de 3 mil profissionais da educação básica e superior, das redes pública e privada, de todas as regiões e confirmou que a violência ultrapassa a esfera verbal.
Ela inclui intimidações, denúncias políticas, conflitos com famílias, intervenção de gestores, sanções administrativas e, em casos extremos, agressões físicas.
A consequência mais grave é o abandono da profissão, fenômeno já identificado como um dos fatores do atual déficit de professores no país.
Segundo os dados, 58% dos entrevistados sofreram diretamente algum episódio de perseguição, enquanto 19% relataram ter acontecido com colegas e 15% ouviram relatos na própria instituição.

A maior parte afirma que os casos ocorreram mais de uma vez, revelando um padrão persistente, não um evento isolado.
O alvo principal é a liberdade de ensinar
Os dados mostram que a censura se concentra em temas tidos como “sensíveis”, e hoje usados como instrumento de ataque político. Questões políticas (73%), gênero e sexualidade (53%), religião (48%) e ciência (41%) lideram a lista de assuntos que motivaram perseguições.

A pesquisa mostra ainda que a violência está distribuída em todos os níveis de ensino, tanto na rede pública quanto privada. O estudo mapeia também a origem dos ataques, elemento chave da investigação:
- 57% partem de profissionais da área pedagógica;
- 44% de familiares de alunos;
- 34% dos próprios estudantes;
- 27% de outros professores;
- 26% de dirigentes;
- 24% de funcionários;
- e 21% de órgãos administrativos, secretarias ou reitorias.
Ou seja, a violência não vem só “de fora”: ela já faz parte da estrutura que deveria proteger o processo educacional.
Risco à saúde e abandono da docência
Os episódios provocam medo, autocensura e desgaste emocional. Segundo o estudo, 45% dos entrevistados se sentem permanentemente vigiados enquanto trabalham. Metade afirma mudar conteúdos por receio de acusações de doutrinação.
O impacto pessoal e profissional é elevado: 33% dizem que a perseguição foi extremamente impactante, afetando saúde, relações pessoais e continuidade na profissão. Para muitos, o desfecho tem sido a saída do magistério.
O estudo também confirma que os episódios aumentam em anos eleitorais, com picos em 2016, 2018 e 2022 — período marcado por forte polarização política.
A conclusão central é que o ambiente escolar vem sendo transformado por conflitos políticos externos, que alteram o ensino e comprometem o direito de aprender.
O relatório sugere a criação de uma política nacional para a proteção de educadores, reconhecendo os professores como agentes de direitos humanos e estabelecendo mecanismos de denúncia e proteção institucional.


