
Os afastamentos do trabalho por saúde mental cresceram no Brasil em 2025, onde mais de meio milhão de pessoas solicitaram licença, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ao todo, foram 546 mil afastamentos, um aumento de 15% em relação a 2024. As principais causas foram ansiedade, depressão e a Síndrome de Burnout.
Para a psicóloga e especialista em Saúde Mental, Maria do Carmo Lopes, apenas férias, folgas ou licenças não são suficientes para reverter quadros de esgotamento. “Quando a pessoa já está com a síndrome, isso não resolve, apenas ameniza momentaneamente”, afirma.
De acordo com a especialista, a Síndrome de Burnout se manifesta por um conjunto de sinais que vão além do cansaço comum. Entre os principais sintomas, ela destaca, estão o esgotamento físico e mental, dificuldade de concentração, sentimento de incompetência, dores de cabeça frequentes, alterações de apetite, insônia, oscilações de humor, negatividade constante, isolamento social, dores musculares, pressão alta e problemas gastrointestinais.
“Quando o trabalhador já não consegue mais controlar esses sinais, ele se encontra em um estado de extrema exaustão. Por isso, é fundamental buscar ajuda antes que o quadro se agrave”, alerta.
Maria do Carmo Lopes reforça que a crise de saúde mental relacionada ao trabalho envolve setores tanto da iniciativa privada quanto do serviço público. Para ela, o aumento expressivo dos afastamentos está diretamente ligado ao excesso de cobranças, pressão constante, falta de clareza nas funções, falhas na comunicação, conflitos mal resolvidos, ausência de reconhecimento, além de situações de assédio e humilhação. “Muitas vezes também falta apoio por parte da liderança, o que intensifica o adoecimento emocional”, pontua.
No processo de recuperação, a psicóloga Maria do Carmo Lopes reforça que o acompanhamento profissional é indispensável. “É necessário buscar um profissional de saúde mental, fazer terapia e, em alguns casos, fazer uso de medicação, como ansiolíticos ou antidepressivos. Esse tratamento não é imediato e a melhora no quadro costuma acontecer entre um a três meses de acompanhamento contínuo, podendo variar conforme cada caso”, explica.
A psicóloga reforça que mudanças nas condições de trabalho, mas também nos hábitos e no estilo de vida, são fundamentais, incluindo a prática de atividade física, ter mais tempo para lazer, convivência familiar e social. Ela ainda faz um alerta: o consumo de álcool e a automedicação para quem está com Burnout ou mesmo ansiedade podem piorar a confusão mental e agravar o quadro.
NR1 e as mudanças no ambiente profissional
Do ponto de vista organizacional, a psicóloga Maria do Carmo Lopes destaca que as empresas não são responsáveis pela vida emocional completa de seus colaboradores, mas têm um papel decisivo na prevenção do adoecimento.
“Cabe às empresas criar ambientes emocionalmente seguros, reconhecer que o trabalho impacta diretamente a saúde mental e adotar medidas eficazes de prevenção. Comunicação respeitosa, apoio aos colaboradores, ações preventivas e liderança preparada fazem toda a diferença”, observa.
Esse cuidado começa, inclusive, a ganhar respaldo legal. O Ministério do Trabalho atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), por meio da Portaria nº 1.419/2024, passando a exigir que as empresas incluam os riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos.
A medida prevê o mapeamento desses riscos, capacitação de lideranças, ações preventivas contra assédios e a criação de canais de escuta e diálogo. O processo teve caráter educativo em 2025 e, a partir de 26 de maio de 2026, passará a ser fiscalizado.
Maria do Carmo Lopes comenta que iniciativas como essa representam um avanço importante no cuidado do trabalhador. “As novas diretrizes tendem a mudar a cultura corporativa ao tornar obrigatório o reconhecimento de que jornadas exaustivas e carga mental excessiva impactam diretamente a saúde dos trabalhadores. É um caminho necessário para reduzir o adoecimento e os afastamentos”, afirma.


