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Amazonas concentra 35% das mortes por acidentes fluviais no Brasil; falhas humanas entre as causas

Levantamento do Sistema de Informações sobre Mortalidade aponta 608 óbitos no Amazonas em 24 anos, número que representa mais de um terço dos registros nacionais na categoria.

O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, nas proximidades do Encontro das Águas, em Manaus, reacendeu o alerta sobre a alta incidência de acidentes fluviais no Amazonas. Três mortes foram confirmadas e cinco pessoas seguem desaparecidas, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). O episódio ocorreu em um estado que concentra 35,8% das mortes por acidentes de transporte por água registradas no Brasil entre 2000 e 2024.

As equipes de resgate percorreram aproximadamente, 212 quilômetros pelo Rio Amazonas, em uma área de busca de 320 km quadrados à procura dos desaparecidos desde o acidente (15/02) em busca das vítimas. Entre as vítimas fatais estão a criança Samila de Souza Oliveira, de três anos, a estudante de Odontologia Lara Bianca Bezerra Lopes, 22 anos e o músico Fernando Grandêz, de 39 anos.

Os passageiros viajavam na lancha rápida Lima de Abreu XV, que saiu de Manaus com destino ao município de Nova Olinda do Norte. O naufrágio ocorreu na região do encontro dos rios Negro e Solimões e 71 pessoas foram resgatadas por outra embarcação que passava pelo local. O condutor da embarcação está foragido.

O coronel Orleilso Muniz, explicou que a operação enfrenta obstáculos naturais característicos da região. “Existem muitos fatores que complicam a operação, os fatores hidrodinâmicos do Encontro das Águas, correntes de arrasto, diferença de densidade de um rio para o outro, formação de redemoinho, além dos fatores meteorológicos. Hoje, por exemplo, caiu uma chuva torrencial e praticamente inviabilizou a operação na parte da tarde”, ressaltou.

Ele detalhou que a interação entre as águas dos rios Negro e Solimões cria um ambiente de difícil previsibilidade. Segundo o comandante, a combinação de correntes intensas e mudanças climáticas momentâneas exige cautela redobrada das equipes, especialmente em operações submersas.

Estado concentra mais de um terço das mortes do país

Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que o Amazonas registrou 608 das 1.696 mortes por acidentes de transporte por água no Brasil entre 2000 e 2024. Os registros estão classificados no código CID-10 V90, que identifica acidentes com embarcações que resultam em afogamento ou submersão.

Do total contabilizado no estado ao longo de 24 anos, 24 mortes ocorreram em Manaus. No mesmo intervalo, o país registrou 1.696 óbitos na mesma categoria, o que dimensiona a concentração proporcional do Amazonas nas estatísticas nacionais.

Relatórios da Marinha do Brasil indicam que, entre 2017 e 2021, foram registrados 1.171 acidentes e incidentes de navegação distribuídos pelos distritos navais do país. O 9º Distrito Naval, responsável pela fiscalização no Amazonas e em áreas da Amazônia Ocidental, integra esse levantamento, que aponta volume significativo de ocorrências em águas interiores.

Falhas humanas e negligência estão entre causas

Estudo intitulado “Acidentes com embarcações na região amazônica: identificação de causas e alternativas de prevenção” aponta que, na Amazônia, os acidentes fluviais estão frequentemente associados a falhas humanas, negligência e condições inadequadas das embarcações. A pesquisa contou com apoio do Governo do Amazonas e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

O coordenador do estudo, doutor em Engenharia Oceânica Jassiel Fontes, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explicou que os resultados foram obtidos por meio de revisão bibliográfica criteriosa. “Com isso, os resultados da pesquisa podem contribuir na governança e na tomada de decisões, visando a implementação de estratégias de prevenção de acidentes na região amazônica”, afirmou o pesquisador em declaração publicada no site da Fapeam.

Segundo ele, o objetivo é oferecer subsídios técnicos que fortaleçam políticas de prevenção e segurança na navegação. O naufrágio no Encontro das Águas ocorre, assim, em um cenário já marcado por indicadores oficiais e pesquisas acadêmicas que apontam a recorrência e a gravidade dos acidentes fluviais no estado.

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