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Cinema: “O Bolo do Presidente”: alegria apenas para o aniversariante

Ovos, farinha, açúcar, leite e fermento parecem ser ingredientes acessíveis para uma receita de bolo, mas, quando se trata de famílias que vivem na miséria, isso parece ser uma fortuna.

Mesmo com recursos financeiros e materiais escassos, essa passa a ser a preocupação e a responsabilidade de uma criança que foi sorteada pelo professor, na escola, para fazer o bolo de aniversário para Saddam Hussein, presidente do Iraque de 1979 até sua morte, em dezembro de 2006.

Essa é a premissa de “Bolo do Presidente” (“The President’s Cake”; “Mamlaket Al-Qasab”; 2025), que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros.

Dirigido por Hasan Hadi, a história se passa nos anos 1990, no Iraque em guerra. Lamia, a criança estudante (interpretada com total convicção por Baneen Ahmad Nayyef), chega à sua casa com a notícia de que deverá preparar o bolo para levar à escola, com determinadas exigências de seu professor. A notícia não parece gerar alegria, mas sim motivo de preocupação. A família de Lamia, assim como muitas outras daquele lugar, vive miseravelmente. As pessoas precisam andar por distâncias muito longas para conseguir um pequeno recipiente de água, precisam pechinchar para comprar alimentos que, pelo aspecto, já deveriam estar descartados, além de tentar negociar objetos pessoais em troca de itens básicos para a sobrevivência. Em diferentes momentos, as pessoas reclamam do valor dos produtos, cada vez mais inacessíveis.

Não bastasse a dureza da vida, na escola, Lamia e os outros alunos da classe são ameaçados pelo professor, um soldado que exerce terror psicológico sobre eles, e obrigados a repetir saudações como “vida longa ao Saddam”, expressão que também é entoada por adultos que saem em marcha pelas ruas, declarando, em coro, obediência ao regime de Saddam Hussein e afirmando que se sacrificariam por ele. Sob o regime de Hussein, as escolas se ocupam em implantar uma ideologia política na qual o extremismo e a lealdade a uma figura política, independentemente de seu caráter autoritário, são naturalizados e constituem uma prática constante.

Sem o apoio de Bibi (Waheed Thabet), sua única familiar, Lamia, junto de seu inseparável companheiro, o galo, inicia uma jornada para conseguir os ingredientes para o bolo e, então, cumprir a atividade obrigatória de celebração do aniversário de Hussein. Essa aventura é marcada por diversos obstáculos e situações de vulnerabilidade que evidenciam sua condição de criança em um contexto de desigualdades e violência, incluindo a tentativa de assédio por parte de um homem que, inicialmente, se apresentou como confiável.

O filme termina reflexivo e triste, e não tem como ser diferente em um país em que a guerra ocupa os mais diversos espaços e contextos, determinando as condições e a expectativa de vida das pessoas.

O bolo de aniversário, que costuma trazer alegria para as crianças, no caso do filme, trouxe alegria apenas para o aniversariante, que, como presidente, deveria se ocupar do país e da população, mas se ocupa de coisas menores enquanto as pessoas padecem em um lugar marcado pela vulnerabilização social. Em consonância com o contexto histórico e social do Iraque naquele período, a alegria é um elemento ausente da narrativa fílmica.

Com toda convicção, na minha avaliação, o filme tem um roteiro que é sublime por associar a guerra e tudo aquilo que ela é capaz de provocar na vida, retirando qualquer alegria e perspectiva e deixando apenas traumas e perdas irreparáveis. É também sublime na direção e nos desempenhos centrais de atuação, que captam e entregam cada emoção nas cenas. É um filme belíssimo, construído com total responsabilidade, inclusive para mostrar a realidade de vida das pessoas iraquianas naquele contexto.

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