Com 3,8% dos empregos digitais do país, o Amazonas supera grandes centros como São Paulo e Distrito Federal; investimentos no setor devem somar R$ 774 bilhões até 2028.

Manaus atravessa uma transformação concreta e estratégica que já reposiciona a cidade no cenário nacional. Longe de ser apenas um polo industrial tradicional, a Zona Franca de Manaus (ZFM) e o ecossistema local passaram a investir massivamente em tecnologia, automação e inovação. Os resultados já aparecem nos indicadores: hoje, o Amazonas concentra 3,8% dos empregos digitais do país, superando estados como São Paulo e o Distrito Federal, que registram 3,1% cada, conforme um estudo recente da consultoria Macroplan.
Esse avanço abre novas perspectivas para os jovens que desejam se inserir na revolução digital, criando espaço para carreiras mais valorizadas. Por outro lado, impõe o desafio imediato de investir em formação tecnológica para acompanhar o ritmo das mudanças.
“As oportunidades são consistentes. Dados do LinkedIn indicam que as vagas mais aquecidas estão concentradas em Engenharia de IA, Análise de Dados e Cibersegurança”, explica a executiva de Recursos Humanos (RH) e mentora de carreira, Isabela Nunes.
Segundo ela, quem está começando encontra duas vantagens claras: a flexibilidade do trabalho remoto e a disposição das empresas em contratar iniciantes com base no potencial de aprendizado, oferecendo treinamento prático interno. O ritmo de crescimento deve se manter aquecido, impulsionado pela previsão de investimentos de R$ 774 bilhões no setor tecnológico nacional até 2028, segundo dados da Brasscom.
A criação de novos cursos de graduação em tecnologia e Inteligência Artificial (IA) é uma das principais evidências dessa metamorfose. A Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) saíram na frente e passaram a oferecer o curso de graduação em IA, consolidando a região como referência.
Na UFAM, o curso integra a Área Básica de Ingresso (ABI) em Computação e engloba disciplinas complexas como Aprendizado de Máquina, Robótica e Visão Computacional, tornando-se o primeiro bacharelado federal da área na Região Norte. Para dar suporte robusto ao curso, a universidade recebeu uma grande infraestrutura computacional para pesquisas avançadas: um supercomputador baseado na plataforma Intel Gaudi 3. Já a UEA expandiu o impacto da formação ao levar as vagas de tecnologia para além da capital, alcançando municípios do interior como Parintins e Itacoatiara.
No setor privado, a Fametro foi pioneira ainda em 2023 ao abrir graduações focadas no universo dos dados, como Ciência de Dados, Big Data, Inteligência Analítica e Jogos Digitais. Os frutos práticos já começaram a aparecer. Em junho, o acadêmico Haniel Oliveira, do curso de Gestão da TI, apresentou uma plataforma digital voltada ao planejamento e organização das finanças pessoais de moradores de uma comunidade local, utilizando IA para apoiar a educação financeira pelo celular.
O impacto no cotidiano e o “fim da decoreba”
Para os estudantes e novos profissionais, a IA já faz parte da rotina de trabalho. O estudante de Marketing Iago Rodrigues utiliza ferramentas de inteligência artificial para estruturar relatórios, gerar ideias, criar personas de clientes e automatizar tarefas de revisão.
“Ela acelera a velocidade do aprendizado, funciona como um apoio constante que permite tirar dúvidas específicas na hora e me prepara para um mercado que exige menos ‘decoreba’ e mais foco em análise crítica e tomada de decisão”, relata Iago.
A especialista Isabela Nunes reforça que o papel da tecnologia não é substituir profissões, mas automatizar processos repetitivos e operacionais. Ela destaca que o sucesso está em unir o tradicional ao digital. “Na medicina, isso aparece na telemedicina e no uso de IA para diagnósticos. Na psicologia, vemos o atendimento online expandir fronteiras. O profissional do futuro usa as ferramentas digitais para valorizar a sua profissão tradicional”, aponta.
Como se preparar para o futuro?
Mudar a mentalidade do mercado exige também transformar o modelo de ensino. Para o economista André Andrade Cardoso, professor da UFAM e especialista em neurociência e comportamento humano, o sistema educacional precisa migrar da memorização para uma aprendizagem mais ágil, prática e voltada para competências humanas que as máquinas não podem replicar.
Cardoso recomenda quatro passos essenciais para os jovens que desejam se preparar para este novo cenário:
- Domínio da IA: Compreender programação, uso de ferramentas generativas e ética digital.
- Desenvolvimento de soft skills: Focar em habilidades comportamentais como inteligência emocional, pensamento crítico e adaptabilidade.
- Carreiras em expansão: Olhar para setores em crescimento como saúde, finanças, logística e energia.
- Aprendizagem contínua (lifelong learning): Buscar microcertificações e acompanhar tendências globais de forma interdisciplinar.
Ponte para o mercado: Feira Norte do Estudante 2026
Para o economista, iniciativas regionais funcionam como uma ponte física indispensável entre a teoria das salas de aula e a realidade do mercado. Ele aponta a Feira Norte do Estudante (FNE) como um desses aceleradores essenciais em Manaus.
“O evento contribui por meio da desmistificação de novas carreiras, do contato direto com o ecossistema e da orientação profissional”, afirma Cardoso. Ele destaca ainda o papel social do projeto Carona Pro Futuro, ação da feira que garante transporte gratuito para jovens de escolas públicas, áreas periféricas e do interior do estado.
Com a proposta de se consolidar como um ambiente de experiência e reflexão para as novas gerações, a Feira Norte do Estudante 2026 já tem data marcada. O evento acontece nos dias 23, 24 e 25 de setembro, no Centro de Convenções do Manaus Plaza Shopping, das 9h às 21h, apresentando as principais tendências e caminhos para o futuro profissional na região.


