Novo El Niño ameaça Amazônia antes da recuperação completa da última forte seca, aponta estudo.

A Amazônia corre contra o tempo. Antes mesmo de se recuperar totalmente da seca histórica que assolou a região entre 2023 e 2024, a floresta já enfrenta a ameaça de um novo período de estiagem com o retorno confirmado do fenômeno El Niño. O alerta ganha contornos dramáticos nos corações hidrográficos da região: os rios Negro e Solimões, que testemunharam imagens desoladoras no último grande evento climático e ainda carregam as marcas da crise.
Um estudo recente publicado na prestigiada revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) aponta que 53,7% das áreas preservadas atingidas pela última seca podem levar mais de sete anos para recuperar os níveis anteriores de umidade e biomassa vegetal — o maior tempo de regeneração registrado nas últimas três décadas.
O Alerta Vermelho nas Águas: Recordes Negativos
Os efeitos da combinação trágica entre o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte se materializaram de forma avassaladora nas bacias que cortam o estado do Amazonas:
- Rio Negro: Em Manaus, o gigante de águas escuras registrou o menor nível em mais de um século de medições, isolando comunidades e transformando a paisagem urbana e ribeirinha.
- Rio Solimões: A imensa rodovia fluvial viu seu leito ser tomado por extensos bancos de areia, enquanto diversos de seus igarapés secaram completamente, interrompendo o transporte e o abastecimento de comida e água.
Embora dados do MapBiomas indiquem que a superfície de água na Amazônia tenha subido em 2025 devido à influência da La Niña, cientistas são enfáticos: cheia não significa cura.
“O retorno da água aos rios mascara uma realidade subterrânea e invisível. A recuperação do ecossistema depende da saúde das florestas ao redor, da evapotranspiração e do restabelecimento da biomassa vegetal, processos que demandam anos de estabilidade climática”, alertam os pesquisadores.
O Ciclo Vicioso da Degradação
O grande temor dos especialistas é a frequência desses eventos extremos, impulsionados pelas mudanças climáticas globais. Quando uma seca severa acontece logo após a outra, o tempo de regeneração da floresta é zerado. Sem conseguir reciclar a água adequadamente, as bacias do Negro e do Solimões perdem resiliência.
Esse cenário atinge o ápice da gravidade quando a crise climática se soma à ação humana. O desmatamento, a exploração de madeira e as queimadas funcionam como um catalisador do desastre:
Desmatamento/Queimadas ➔ Menor infiltração de água no solo ➔ Esvaziamento dos lençóis freáticos ➔ Seca severa nos rios (Negro e Solimões)
A perda gradual de biomassa pode fazer com que a Amazônia repita o cenário observado após a seca de 2005, quando, em vez de funcionar como o “pulmão” que absorve carbono, a floresta passou temporariamente a emitir mais gases de efeito estufa devido à alta mortalidade de suas árvores.
A porção sul da Amazônia e as áreas de transição continuam sendo as mais vulneráveis, mas os recordes históricos quebrados no Negro e no Solimões deixam claro que o coração da maior floresta tropical do mundo está batendo em um ritmo cada vez mais alarmante.


