
A atualização histórica do manual “Mapeamento de Riscos: Conceitos e Métodos Aplicados a Processos Geológicos e Hidrológicos” nesta quarta-feira (19), surge em um momento crucial para o municipalismo brasileiro. Após quase duas décadas sem revisões, a publicação elaborada pelo Ministério das Cidades e parceiros técnicos reformula a gestão de desastres urbanos no país, integrando tecnologias modernas de geoprocessamento e descartando a classificação de risco baixo para concentrar os esforços estatais onde o perigo é iminente: nas áreas de médio, alto e muito alto risco.
A urgência imposta pelas mudanças climáticas — intensificada por eventos severos e pela necessidade de respostas rápidas — acelerou o lançamento do documento. O objetivo central é fornecer uma diretriz padronizada para que as prefeituras elaborem ou revisem seus Planos Municipais de Redução de Risco (PMRR), atendendo a uma demanda prioritária: a nota técnica da Casa Civil que apontou 1.942 municípios suscetíveis a desastres no Brasil, colocando quase 9 milhões de pessoas sob ameaça direta de deslizamentos, inundações e enxurradas.
O desafio de Manaus e os riscos no Norte do país
A inclusão de conceitos inéditos na nova edição do manual, como a delimitação específica de setores de risco hidrológico e a descrição técnica de processos erosivos — a exemplo das “terras caídas” —, dialoga diretamente com a realidade do Norte do país e, em especial, de Manaus.
Na capital amazonense, o crescimento urbano acelerado sobre uma topografia recortada por vales e igarapés criou um cenário de alta vulnerabilidade. Dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indicam que mais de 112 mil pessoas vivem em áreas classificadas com risco alto e muito alto na cidade.
Zonas como a Leste e a Norte concentram bairros fortemente impactados por desbarancamentos e deslizamentos de terra durante o período de chuvas intensas, além do constante risco de enxurradas nas margens dos igarapés.
Paralelamente, o fenômeno das “terras caídas” — a erosão e desmoronamento sistemático de grandes margens fluviais provocado pela força das correntes e acentuado por secas e cheias extremas — afeta comunidades inteiras na região metropolitana e rural de Manaus.
Com a aplicação do novo manual, gestores públicos e técnicos da Defesa Civil ganham ferramentas refinadas para identificar estes setores críticos com maior precisão e rapidez. Ao integrar a tecnologia à gestão territorial, o manual reforça que a solução para proteger vidas em Manaus e nos quase dois mil municípios mapeados passa pela antecipação do perigo, fortalecimento da infraestrutura urbana e adaptação climática contínua.
Segundo os mapeamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e as avaliações da Defesa Civil de Manaus, os setores de risco alto e muito alto para deslizamentos de terra, erosão (voçorocas) e inundações estão concentrados principalmente nas Zonas Leste e Norte da capital amazonense, marcadas pela ocupação desordenada em encostas íngremes e barrancos de igarapés.
Principais bairros afetados por Zona
Zona Leste (maior densidade de setores de risco muito alto):
- Jorge Teixeira: É a área historicamente mais crítica da cidade para deslizamentos de grande porte em encostas de morros, devido à combinação de relevo inclinado, solo instável e ocupação sem infraestrutura.
- Gilberto Mestrinho: Apresenta diversos pontos de desbarrancamento e alagamentos periódicos nas proximidades de igarapés.
- Colônia Antônio Aleixo: Reúne áreas expostas a processos erosivos graves e desmoronamento de barrancos (inclusive nas margens fluviais).
- Nova Floresta, Mauazinho e Tancredo Neves: Locais com ocupações consolidadas em encostas íngremes e vales.
Zona Norte:
- Cidade Nova (e loteamentos próximos, como a comunidade Acará): Concentram setores vulneráveis a deslizamentos de massa e solapamento de margens.
- Novo Israel e Colônia Terra Nova: Áreas recortadas por relevo acidentado e cabeceiras de igarapés sujeitas a enxurradas e erosão.
- Monte das Oliveiras e Santa Etelvina: Locais com frequentes ocorrências de desbarrancamentos durante o inverno amazônico.
Zona Sul e Centro-Sul (risco predominantemente hidrológico):
- Educandos, Maués e Betânia: Apresentam risco elevado de inundações e alagamentos associados à subida do Rio Negro e ao transbordamento de igarapés urbanos, além de desmoronamentos na faixa costeira.
Fatores de vulnerabilidade identificados pelo SGB
- Desmatamento e cortes inadequados na terra: A remoção da vegetação nativa das encostas reduz a sustentação do solo e acelera a erosão.
- Lixo e efluentes domésticos: O descarte irregular de resíduos e o lançamento de água servida diretamente nos barrancos encharcam o solo, servindo como gatilho para os deslizamentos durante chuvas intensas.
- Ocupação das faixas de servidão: A proximidade excessiva das moradias em relação às cristas de barrancos e leitos de igarapés aumenta a exposição direta das famílias aos desastres.


