Compra da mina Pitinga, em Presidente Figueiredo, reforça o domínio chinês sobre minerais críticos estratégicos na Amazônia.

A disputa geopolítica pelas matérias-primas do futuro atingiu o coração da Amazônia. A compra da Mineração Taboca pela estatal chinesa China Nonferrous Metal Mining Group (CNMC), em um negócio de US$ 340 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão), mudou o patamar da histórica mina de Pitinga, localizada no município de Presidente Figueiredo, a 107 quilômetros de Manaus. Conhecida há décadas como uma das maiores produtoras de estanho do país, a operação passa a ser vista como um ativo estratégico global no mercado de terras raras, nióbio e tântalo.
A movimentação no Amazonas reflete um fenômeno nacional. Um levantamento da Repórter Brasil e da Associated Press revelou que 42% dos mais de 2.700 requerimentos para exploração de terras raras no Brasil estão sob controle de grupos estrangeiros, sendo que 86% desses pedidos foram feitos a partir de 2023. Nos projetos em fase mais avançada (operação ou pré-operação comercial), a hegemonia externa é ainda mais expressiva: 31 dos 45 processos mapeados pertencem a companhias internacionais.
O peso estratégico e os planos de expansão
A chegada do capital chinês a Pitinga traz projeções de crescimento acelerado e investimentos expressivos para a infraestrutura local:
- Aporte financeiro: Anúncio de US$ 100 milhões (cerca de R$ 523 milhões) destinados à modernização e expansão inicial da Mina de Pitinga.
- Meta de curto prazo: Dobrar a capacidade produtiva da operação até o ano de 2028.
- Projeção de longo prazo: Elevar a produção anual de estanho do patamar atual de 6 mil toneladas para cerca de 25 mil toneladas até 2035.
- Diversificação mineral: Planos registrados no Ministério Público Federal (MPF) preveem a extração comercial de terras raras, nióbio, tântalo, zircônio e háfnio.
O interesse asiático sobre esses elementos se justifica pelo papel central que desempenham na transição energética e na tecnologia de ponta. As chamadas terras raras — um grupo de 17 elementos químicos — são indispensáveis para a fabricação de ímãs permanentes usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, dispositivos de inteligência artificial e sistemas de defesa militar. Embora o Brasil detenha uma das maiores reservas do planeta, a China domina a tecnologia de refino e processamento industrial desses minerais.
Histórico de disputas territoriais e socioambientais
Além de inserir o Amazonas no xadrez da segurança econômica internacional, a ampliação de Pitinga reabre feridas históricas sobre a posse da terra e os impactos na região:
| Aspecto | Histórico e Contexto |
| Demarcação Indígena | Documentos históricos apontam que a área da mina integrava o território tradicional do povo Waimiri-Atroari em 1971. Em 1981, durante a ditadura militar, o governo alterou os limites da reserva, retirando cerca de 526 mil hectares — área onde Pitinga se consolidou. A homologação final da Terra Indígena, em 1989, excluiu o terreno minerário. |
| Passivo Ambiental | A escala dos novos investimentos e a projeção do aumento de lavra reacenderam investigações de órgãos ambientais e do MPF sobre os impactos operacionais e o licenciamento das expansões na bacia hidrográfica local. |
A transição do perfil produtivo de Pitinga transforma o empreendimento em um divisor de águas local: ao mesmo tempo em que projeta o Amazonas como fornecedor de insumos críticos para a indústria mundial, reacende os dilemas entre o avanço do extrativismo de grande escala, a soberania sobre os recursos naturais e os direitos territoriais das populações originárias.


