
Levantamento inédito baseado em 272 semanas de dados de busca do Google Trends derruba um mito recorrente sobre o comportamento do consumidor endividado: o crédito não é a primeira reação ao aperto no orçamento — é a última. A pesquisa, conduzida com modelagem estatística e testes de causalidade, identificou uma sequência disciplinada de enfrentamento da crise financeira doméstica, que começa em casa, com o corte de gastos, e só termina, semanas depois, no pedido de empréstimo.
O estudo mapeou o comportamento de busca das famílias brasileiras em quatro frentes — crédito emergencial e renegociação de dívidas, corte de gastos, geração de renda extra e verbalização explícita de aflição financeira (termos como “como sair das dívidas” e “não tenho dinheiro para”) — para identificar o ponto de inflexão em que o ajuste financeiro deixa de bastar.
O corte de gastos abre o processo
O primeiro movimento identificado é o cancelamento de assinaturas, planos e a busca por cupons de desconto. Esse comportamento antecede, de forma estatisticamente robusta, o aumento nas buscas por renda extra e trabalho informal — numa relação de quase um para um (coeficiente de 0,97) que se mantém estável por até seis semanas. É o elo mais forte identificado em toda a cadeia.
Renda extra antecede a angústia explícita
Esgotada a via do ajuste doméstico, o consumidor parte para complementar a renda. Esse movimento antecede, por sua vez, o aumento nas buscas que expressam angústia financeira de forma aberta — sinal de que é o esgotamento das alternativas informais que empurra a família para o desespero declarado.
O crédito chega por último — e mais forte quanto mais tarde
O dado mais contraintuitivo do estudo: a busca por crédito emergencial e antecipação de FGTS não antecipa a crise financeira — ela reage a uma crise já instalada, e o efeito cresce, não diminui, com o tempo. Seis semanas depois do pico de aflição financeira, a associação com as buscas por crédito é quase o dobro da relação imediata. As famílias brasileiras, mostram os dados, resistem ao endividamento até o limite.
“Os números mostram um consumidor muito mais racional e resiliente do que o senso comum sugere. A dívida não é a primeira escolha — é o último recurso, acionado só depois que as alternativas de ajuste e renda se esgotam”, afirma Claudio Felisoni de Angelo, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School.
O que os dados recomendam
A conclusão prática é dura para o desenho de políticas de educação financeira e crédito preventivo: mirar apenas quem já busca empréstimo chega tarde. O sinal de alerta real acende semanas antes, no corte de gastos — é ali que a crise financeira das famílias brasileiras começa a aparecer, muito antes de virar estatística de inadimplência.
Sobre o IBEVAR – O IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo é referência em pesquisas e conteúdos sobre Varejo e Consumo e principal plataforma de relacionamento de executivos do setor. Realiza mais de 40 pesquisas periódicas anuais que contribuem com o mapeamento do setor, como projeções relacionadas a vendas e intenção de compra, inflação e inadimplência, além de realizar pesquisas de tendências das principais datas sazonais e comemorativas do Varejo e de proporcionar a capacitação contínua de profissionais do setor por meio de parcerias educacionais. Fundado em 2009, a organização, que reúne mais de 19 mil associados e tem como missão ser uma Instituição que congregue executivos e executivas de varejo, indústria e serviços, promovendo relacionamento profissional e social aos executivos que atuam direta ou indiretamente no mercado de varejo e consumo no Brasil. Nesse sentido, além de celebrar junto ao mercado o reconhecimento às empresas posicionadas no Ranking anual IBEVAR – FIA em variadas categorias do varejo, desenvolveu também o Prêmio de Inovação para estimular a criação de projetos inovadores e apresentar ao mercado soluções para os desafios do Varejo. E ainda, cria debates relevantes e networking de alto nível nos Encontros Temáticos e Encontros com Varejistas, eventos que acontecem periodicamente ao longo do ano.


