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Amazônia tem 2,7 mil espécies de peixes; Amazonas concentra maioria

A bacia hidrográfica da Amazônia abriga a maior diversidade de peixes de água doce do planeta. Um relatório recente confirma a presença de mais de 2,7 mil espécies catalogadas no bioma, um número que representa cerca de 15% de toda a ictiofauna doceaquícola mundial. A impressionante variedade vai desde o gigante pirarucu até pequenos espécimes ornamentais essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas fluviais.

No estado do Amazonas, que concentra a maior fatia do território da bacia, os números ganham ainda mais relevância socioeconômica e ambiental:

  • Consumo Recorde: O Amazonas lidera o consumo per capita de peixe no Brasil, superando 100 kg por habitante ao ano em algumas comunidades ribeirinhas — marca quase dez vezes maior do que a média recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Impacto na Economia: A pesca artesanal e o manejo sustentável, como o do pirarucu, movimentam dezenas de milhões de reais anualmente no estado, servindo como fonte primária de renda e segurança alimentar para milhares de famílias locais.
  • Ameaças Recentes: Pesquisadores alertam que secas extremas nos rios Solimões e Negro, intensificadas pelas mudanças climáticas nos últimos anos, isolaram comunidades e colocaram em risco o habitat de espécies endêmicas da região.

O mapeamento contínuo das espécies reafirma a necessidade de políticas públicas voltadas à preservação dos rios e ao combate à contaminação por mercúrio oriunda do garimpo ilegal, garantindo a sustentabilidade da vida aquática no coração da floresta

Mais sobre o estudo

Os dados constam na quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, liderado pela The Nature Conservancy (TNC) e elaborado com a participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações, divulgado nesta terça-feira (8).

O estudo aponta que os peixes têm papel central na manutenção dos ecossistemas amazônicos e na dinâmica dos rios. Espécies como tambaqui, pacu e matrinxã entram em áreas de floresta alagada para se alimentar de frutos e dispersar sementes por grandes distâncias. Outras espécies transportam nutrientes e energia entre ambientes aquáticos e terrestres.

A conectividade dos rios aparece como um dos pontos centrais do relatório. A dourada, citada no levantamento, realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, com percurso superior a 11 mil quilômetros ao longo do ciclo de vida. Segundo o estudo, a interrupção dessas conexões por barragens no rio Madeira contribuiu para a redução dos estoques de peixes e para o desaparecimento, na prática, de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.

O relatório também relaciona a conservação dos rios à segurança alimentar e à economia regional. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado supera 600 gramas por pessoa por dia. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, enquanto a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano e sustenta milhares de famílias.

Entre as pressões sobre a biodiversidade, o estudo cita hidrelétricas, desmatamento, poluição, pesca excessiva, mudanças climáticas e garimpo. Segundo os dados reunidos, a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões de mercúrio causadas por atividades humanas na América do Sul. O contaminante se acumula na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.

O relatório identificou ao menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Juntas, elas abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores. Segundo o estudo, essas experiências estão associadas ao aumento da abundância de peixes, à maior riqueza de espécies e a benefícios econômicos e sociais.

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