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Milícias e o tráfico dominam 72% do estado do Rio, afirma estudo

Estudo aponta que milícias dominam 57% da área do Rio

Os grupos milicianos do Rio de Janeiro já controlam 57% do território da capital fluminense, que se somadas aos 15% de domínio de três facções do tráfico de drogas no estado, sobe para 72% do controle do crime organizado sobre os cariocas.

Os dados são do estudo Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro feito pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF, Núcleo de Estudos da Violência da USP, o Disque-Denúncia e as plataformas Fogo Cruzado e Pista News.

Segundo o estudo, a expansão dos milicianos não se limita a bairros da capital. Eles se espalham cada vez mais pela região metropolitana, especialmente na Baixada Fluminense. Foi no âmbito do combate a esse aumento de capilaridade que a Polícia Civil cumpriu duas operações na semana passada, que resultaram na morte de 17 integrantes, que cobravam taxas de pedágio de R$ 10 a 500, na região da Costa Verde Fluminense – Itaguaí e Angra dos Reis.

No Mapa dos Grupos Armados, também aponta para o percentual de territórios em disputa: 25% da capital. Apenas 2% da área do Rio não estaria passando por nenhum domínio criminoso ou conflito entre grupos.

Os pesquisadores observaram uma nítida mudança no cenário do crime. Se antes o tráfico disputava entre si os territórios, hoje a milícia é quem desponta como principal adversária do Comando Vermelho, enquanto as demais facções têm poderio reduzido. Isso desconstrói a ideia de paz que a milícia historicamente tenta vender ao ocupar locais antes pertencentes ao tráfico.

“Segundo o mapa, as milícias também entram em disputas territoriais violentas e atuam em territórios cada vez mais extensos, onde controlam esses bairros ilegalmente, cobrando taxas extorsivas sobre os mercados de serviços essenciais como água, luz, gás, TV a cabo, transporte e segurança, além do mercado imobiliário”, aponta o pesquisador Daniel Hirata, da UFF.

Considerada atualmente “empreendedora”, a milícia já não se limita a atividades como a venda ilegal de gás e o chamado “gatonet”, por exemplo. Os grupos realizam atividades como grilagem e construção de prédios em áreas irregulares. Foi o que ocorreu na Muzema, Zona Oeste da cidade, em abril do ano passado, quando 24 pessoas morreram após uma dessas construções desabar.

A milícia é predominante em quase toda a Zona Oeste e no Oeste metropolitano, enquanto a Baixada vivencia forte divisão com o Comando Vermelho — que, por sua vez, ainda tem controle da maior parte da Zona Norte e do Leste metropolitano.

O grupo mais conhecido do tráfico ainda tem algumas fortalezas na área de maior domínio da milícia, principalmente a Cidade de Deus, cercada por comunidades dominadas por milicianos em Jacarepaguá.

O trabalho cartográfico também mostra alguns focos da milícia indo além da região metropolitana. Há registros espalhados pelo estado, como na Região dos Lagos e na Região Serrana.

Ao apresentar o estudo, os pesquisadores ressaltaram a velocidade com que a milícia conseguiu chegar ao que é hoje. Enquanto esses grupos — formados, na maior parte, por policiais — cresceram nos anos 2000, o tráfico tem um histórico de atuação que remete ao fim dos anos 1970, quando surgiu o Comando Vermelho.

“As disputas entre esses quatro principais grupos não impediram o avanço das milícias, o que nos permite afirmar que essa expansão é o fenômeno mais notável dos últimos anos, além de reconfigurar a dinâmica dos conflitos armados em seu conjunto”, apontam.

Para elaborar o mapa e apresentar os dados, o estudo considerou 37,8 mil denúncias recebidas pelo Disque Denúncia que mencionavam o tráfico ou a milícia. A partir disso, fez-se uma triagem de validação, e os relatos passaram por processos de classificação por meio de termos que apareciam com frequência, criando assim uma espécie de dicionário.

Esses termos foram analisados sob a ótica de três “agregadores”: controle territorial, controle social e atividades de mercado. É possível, segundo os pesquisadores, que haja alguma imprecisão, dado o grau de dificuldade de se mensurar algo desse porte. A ideia agora é elaborar uma série histórica, tendo como início o ano de 2005, e abrir os dados em uma plataforma disponível para consulta.

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