
A retirada do ar de matéria jornalística sobre o candidato Ricardo Nicolau publicada pelo Intercept Brasil, na semana passada, trouxe a tona relações que comprometem a decisão que censurou a reportagem. Liberada após o primeiro turno da eleição para prefeito de Manaus, a matéria revela bastidores que colocam em xeque a credibilidade e a isenção dos envolvidos, além de expor comportamentos inadequados de servidores que ocupam funções públicas de relevância no Amazonas.
“Fomos obrigados a tirar uma reportagem do ar pela primeira vez em nossa história – graças às relações entre política e Judiciário no Amazonas”, informa o site aos seus leitores que tentaram acessar a matéria: “Candidato de Manaus conta com o hospital da família, a covid e o Judiciário para subir nas pesquisas”.
A matéria trata de decisões favoráveis ao então candidato derrotado, que se antecipou as eleições e, segundo ele, abriu mão do mandato de deputado para assumir o combate contra o coronavírus e salvar vidas em Manaus, como propagou durante toda a campanha.
Esse slogan político foi usado em toda a campanha onde ele aparecia como o responsável pela construção do hospital de campanha da cidade em quatro dias. A propaganda também criava a narrativa de que ele foi o responsável pelo tratamento de centenas de pacientes com Covid-19.
Nicolau teve acesso livre na unidade, instalada em uma PPP – parceria público privada – entre a Samel (de sua propriedade) e a Prefeitura de Manaus, e com isso gravou imagens e depoimentos com pacientes, com claras intenções de usar meses depois no horário eleitoral.
A propaganda gerou indignação nos adversários políticos de Nicolau, que entraram com ações onde justificavam que ele cometeu abuso do poder econômico, propaganda ilegal e ainda tentava passar uma imagem de profissional de saúde, já que gravava imagens vestido de branco e visitando leitos de pacientes como se fosse um médico. Em alguns depoimentos feitos dentro do hospital, os pacientes agradeciam ao “doutor Nicolau” pela cura da covid-19.
Os outros candidatos viam nesse “doutor” a possibilidade de algum desavisado achar que ele era médico, apesar do candidato não ter concluído o nível médio, segundo a reportagem.
A reportagem censurada mostra que parte das ações judiciais movidas pelos adversários de Nicolau foram julgadas pela juíza eleitoral Margareth Rose Cruz Hoaegen, que decidiu em favor do candidato em dois
processos que questionavam o uso do nome do grupo Samel e das imagens filmadas dentro do hospital municipal de campanha.
A magistrada discordou dos adversários e a reportagem mostrou que havia uma suspeição nessas decisões porque a juiza tem relações com a família Nicolau, além de observar que ela chegou a ir na festa de aniversário do advogado de Nicolau, Jean Cleuter.
A reportagem foi retirada do ar a pedido de Nicolau, que exigiu a exclusão da matéria e que a Justiça Eleitoral retirasse todo o Intercept do ar. Nicolau entrou com quatro representações contra a publicação no Tribunal Regional Eleitoral no sábado (14).
Uma das representações foi decidida pelo juiz Alexandre Henrique Novaes de Araújo, que, assim como a juíza, segundo a reportagem, também teria relações próximas com o grupo Samel e com a família Nicolau.
Na sua decisão, o magistrado manteve o site no ar, mas determinou a censura do texto alegando que “a publicação imputa fatos sabidamente inverídicos”.
Segundo a reportagem do Intercept, o juiz seria suspeito para julgar o pedido de Nicolau porque esteve entre os convidados de uma festa no prédio da Samel, no dia 21 de agosto, que celebrava o aniversário de Alberto Nicolau, irmão de Ricardo – maior doador da campanha (R$ 1 milhão), e também diretor-presidente do grupo Samel.

Nicolau já era pré-candidato e o juiz Araújo já atuava na fiscalização da propaganda eleitoral na capital, afirma a matéria. Uma foto postada pela juíza Rebeca Mendonça em seu Instagram mostra ela e outros três magistrados, entre eles Araújo.
“Não há nenhum fundamento na decisão de Araújo que justifique a censura de uma reportagem calcada em apuração jornalística”, escreve a redação da Intercept, que diz ainda:
“Como nós, aqui no Intercept, não gostamos de dormir com dúvidas, fomos atrás de fontes para tentar entender melhor o que poderia estar a contecendo. E descobrimos que a esposa do magistrado Araújo, Monike Antony, por exemplo, não escondeu suas preferências políticas nessas eleições. Ela postou um vídeo de campanha de Ricardo Nicolau em suas redes pessoais”.

Ainda segundo a matéria, a esposa aparece em outras fotos com Márcia Nicolau e de Jeanne Nicolau, respectivamente esposa e cunhada do candidato.
Do início da campanha, em setembro, até o final de outubro, os adversários de Nicolau entraram com cerca de dez ações na Justiça Eleitoral contra ele, conforme a Intercept. “Fatos, nada além de fatos”, reitera a reportagem justificando que esse era o teor da matéria.
Seis processos foram para o juiz Araújo ou da juíza Hoaegen. Em nenhum deles, os juízes proibiram Nicolau de usar a marca da família para se promover.
Já os outros processos foram analisados pela juíza Sanã Nogueira Almendros de Oliveira, a única que proibiu a veiculação da marca da Samel nas propagandas eleitorais do candidato.
Nicolau pediu a suspeição da magistrada, alegando que ela estava sendo parcial e que era “a única que rema contra a maré”.
Por decisão do desembargador do TRE-AM, Jorge Manoel Lopes Lins, a juíza Oliveira foi proibida de julgar qualquer ação contra o andidato Nicolau devido à possibilidade de “parcialidade da douta magistrada”.
“Nós não achamos fotos da juíza Oliveira em festas com a família Nicolau”, diz a reportagem do Intercept.
Na decisão que determinou a retirada da reportagem do Intercept do ar, o juiz Araújo afirma ainda que o texto fez uma “propaganda negativa e depreciativa da imagem de Nicolau”.
“O candidato reclamou que promovemos ‘racismo intelectual’ (serio) ao informar que ele não tem ensino superior completo. Mas o que mostramos foram informações oficiais do site do TSE, advertindo que ele não tem formação em medicina, o contrário do que dava a entender em sua campanha eleitoral. Ele nem mesmo concluiu o ensino médio”, explica o Intercept.
O site afirma que entrou em contato com o juiz Alexandre Henrique Novaes Araújo, o TRE, a Samel e Ricardo Nicolau, mas não teve retorno sobre a censura e as ligações entre o candidato, o judiciário e a empresa.
A matéria segue (leia a reportagem completa em https://theintercept.com/2020/11/17/reportagem-intercept-censurada-motivo/) falando sobre a decisão favorável à Samel sobre a doação de equipamentos ao hospital municipal de campanha e que depois foram pedidos de volta.
Também é citado na matéria, uma nova censura, dessa vez contra o jornalista da Rede Calderaro, Dante Graça – em outubro, Nicolau entrou com uma ação pedindo para excluir uma matéria jornalística publicada no site e no jornal A Crítica e compartilhada nas duas redes sociais.
O conteúdo da matéria dizia que Nicolau havia chegado a um debate promovido pela afiliada da Band no dia 1º de outubro “a bordo de um Jeep Compass, SUV de luxo que tem preço inicial de R$ 128 mil”, um valor bem maior do que os veículos que declarou como bens.


