O saneamento básico ainda é um desafio para a capital amazonense, onde três em cada quatro habitantes ainda não têm acesso a esgoto tratado.

Banhada pela maior bacia hidrográfica do mundo, Manaus, a capital do Amazonas, ainda sofre com a falta de saneamento básico. Na cidade de 2,2 milhões de habitantes, três em cada quatro pessoas (74% da população) não têm acesso a esgoto tratado, uma fatia que era ainda maior quatro anos atrás, de 84%.
O avanço nesses últimos anos, ainda que o serviço esteja longe de chegar a todas as famílias, é comemorado pela concessionária Águas de Manaus, que assumiu o saneamento básico da cidade em 2018 e investiu, desde então, 500 milhões de reais.
Depois de ter garantido a universalização do acesso à água tratada na capital amazonense, levando inclusive para comunidades carentes em locais de difícil acesso, a empresa se diz preparada para cumprir a meta do Marco Legal do Saneamento, de universalizar os dois serviços até 2033 — ou seja, chegar a pelo menos 90% de cobertura de esgoto tratado em 11 anos. Com esse objetivo e o de manter os níveis atuais de acesso à água potável, a empresa planeja um investimento de 3,5 bilhões de reais no período.
Serão gastos 1 bilhão de reais para garantir o acesso de 45% da população manauara ao tratamento de esgoto até 2025. Os investimentos começam em áreas com maior densidade demográfica e que já têm estações de tratamento. A previsão é de que a capacidade de parte das 80 estações hoje em atividade seja ampliada.
Para conseguir universalizar o serviço, a concessionária pretende instalar em média, a cada ano, 300 km de redes novas de esgoto, o que equivale a quase a distância de São Paulo (SP) a Ribeirão Preto (SP). Mas, além de garantir a infraestrutura para abastecer a cidade, a empresa precisa convencer pessoas que nunca tiveram acesso à água e ao esgoto que o saneamento básico, embora seja um serviço pago, é essencial para a saúde e para o desenvolvimento. “O desafio principal é a conscientização”, afirma Dal Magro.
Por isso, durante as obras de engenharia, uma equipe social da empresa vai até a casa das pessoas falar sobre os benefícios da chegada da água e do esgoto coletado e tratado. “É quase uma catequese do saneamento”, afirma Renato Medicis, vice-presidente regional na Aegea, empresa controladora da Águas de Manaus. Ele conta que o trabalho de aproximação com as pessoas é essencial para adaptar o serviço ao cliente.
Em alguns locais, a resistência de parte dos moradores tem sido contornada com a ajuda de líderes comunitários. Na comunidade Coliseu, na zona leste de Manaus, onde vivem mais de 10 mil famílias, as obras para levar água tratada começaram em outubro do ano passado. Carlos César da Costa Santos, presidente da Associação dos Moradores da Comunidade do Coliseu, mora na região há mais de 30 anos e conta que, antes, os moradores só tinham acesso esporádico à água não tratada, vinda de poços feitos pelos próprios habitantes do local.
Em geral, o preço era ainda mais caro para quem queria ter acesso a esses poços: cerca de 70 reais por mês. Agora, com a tarifa social implantada na região pela Águas de Manaus, o custo mensal da água tratada pode ficar a pouco mais de 20 reais, se o consumo for baixo. Isso porque, na comunidade Coliseu, todos foram incluídos na tarifa social, embora, pelas regras do programa, a obrigatoriedade seja apenas para pessoas que estejam no Cadastro Único do governo federal.
O benefício da tarifa social, hoje garantido a 85 mil famílias manauaras, dá 50% de desconto no valor das faturas a famílias que vivem em situação de vulnerabilidade. A meta da Água de Manaus é levar a tarifa social a pelo menos 100 mil famílias até julho. “Vai ser a maior quantidade em termos de capitais do país”, diz Thiago Terada, diretor presidente da concessionária.
Mesmo com a tarifa social, algumas pessoas ainda resistem em pagar, conta Gisele Dantas de Oliveira, 42 anos, moradora do bairro Cachoeirinha, na zona sul de Manaus, desde que tinha 2 anos. Ela observa, porém, que há cada vez menos oposiçãoà entrada da empresa no local, diante dos ganhos percebidos nos últimos anos. “As crianças melhoraram muito com a chegada da água. Não têm mais diarreia, vômitos. A maioria não compra mais água, bebe da torneira”, diz.
Hoje, são quase 800 km de rede de esgoto em Manaus, quantidade ainda insuficiente para abastecer toda a cidade. “Estamos no movimento de ampliar. Enquanto isso, na água, já chegamos à universalidade, e o desafio é manter. A cidade cresce, existem ocupações irregulares, e estamos acompanhando de perto para levar infraestrutura e garantir que a universalização será mantida”, diz Dal Magro.


