
As tratativas de paz entre Estados Unidos e Irã começaram, neste sábado (11), em Islamabad, capital do Paquistão, em um cenário que expõe tanto a urgência diplomática quanto a fragilidade de um conflito que já deixou milhares de mortos e reconfigurou o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio.
Mais do que uma mesa de negociação, o encontro de maneira presencial representa uma tentativa de reconstruir canais de diálogo sob novos parâmetros, marcados por desconfiança, pressões militares e um cessar-fogo ainda instável.
A capital paquistanesa foi transformada no epicentro da diplomacia global. Entre sexta-feira (10) e este sábado (11), áreas inteiras da cidade foram isoladas, o comércio suspenso e o acesso a regiões estratégicas rigidamente controlado para viabilizar o encontro.
A delegação norte-americana é liderada pelo vice-presidente JD Vance, acompanhado por Steve Witkoff e Jared Kushner. A presença de Vance é interpretada como sinal de maior engajamento direto de Washington, após meses de desconfiança entre as partes em rodadas anteriores de negociação.
O primeiro-ministro Shehbaz Sharif tem sido uma das vozes mais ativas nesse processo e voltou a classificar o momento como decisivo para o futuro do conflito.
“Este é um momento decisivo. Peço a todos que orem para que estas negociações sejam bem-sucedidas, inúmeras vidas sejam salvas e o mundo veja a paz”, afirmou em discurso televisionado.
Sharif também afirmou que líderes dos dois países devem chegar ao Paquistão neste sábado para avançar nas conversas e destacou o papel das forças de segurança paquistanesas na estabilização do processo.
Os entraves entre as partes são significativos. O Irã defende que qualquer acordo inclua mudanças na presença militar norte-americana na região e maior controle sobre pontos estratégicos como o Estreito de Ormuz.
Já o governo de Donald Trump pressiona por restrições ao programa nuclear iraniano e rejeita a ampliação automática do cessar-fogo para aliados regionais, como o Líbano.
Segundo Trump, a principal exigência de Washington nas negociações com o Irã é impedir que Teerã desenvolva armas nucleares. “Sem armas nucleares, em primeiro lugar. Isso é 99%”, afirmou.
Autoridades iranianas, por sua vez, reiteram que não têm intenção de adquirir armamento nuclear.
O “fator Líbano” se tornou um dos principais pontos de tensão, com Teerã insistindo na inclusão de aliados no acordo, enquanto Washington e Israel defendem a limitação do pacto ao confronto direto entre os dois países.
Pressão militar
A instabilidade é ampliada por episódios recentes de violência e pela permanência de tensões militares em diferentes frentes da região.
Em meio ao impasse, o Estreito de Ormuz segue sob forte pressão e com fluxo de embarcações afetado, em um ponto estratégico por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.
Trump elevou o tom nas vésperas das negociações e afirmou que o Irã “está fazendo um péssimo trabalho” ao lidar com a passagem marítima, aumentando a tensão diplomática antes da reunião.
Apesar do início formal do diálogo, o cenário ainda é de incerteza. O Irã condiciona o avanço das negociações ao cumprimento de exigências como a liberação de ativos bloqueados e a consolidação de um cessar-fogo mais amplo.
Autoridades iranianas também alertam que a retomada das hostilidades pode comprometer qualquer possibilidade de acordo e afetar diretamente interesses norte-americanos na região.
Do lado norte-americano, a expectativa é de avanços rápidos. Trump chegou a afirmar que espera uma definição em curto prazo, enquanto Vance sinalizou disposição para negociar “de boa fé”, embora com ressalvas sobre a confiança no regime iraniano.


