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Janeiro Branco reforça relação acidentes de trabalho e risco empresarial

Alta nos afastamentos por transtornos mentais e novas exigências legais levam empresas a tratar a saúde emocional como parte da segurança do trabalho e da gestão de riscos

O aumento dos afastamentos por problemas de saúde mental e as novas regras sobre riscos psicossociais fizeram o tema ganhar espaço na agenda das empresas. A partir de 2025, a avaliação desses riscos passou a ser obrigatória no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e a partir de 2026 as empresas que não estiverem em conformidade podem sofrer penalidades. Esse novo cenário amplia a responsabilidade das organizações em avaliar o impacto das condições de trabalho na saúde emocional dos empregados.

Neste contexto, a campanha Janeiro Branco deixa de ser apenas uma ação de conscientização e passa a chamar ainda mais atenção para um problema que afeta diretamente a produtividade, os custos e a segurança nas operações. Pressão por resultados, jornadas longas e ambientes de trabalho tóxicos estão entre os fatores que contribuem para o avanço do adoecimento mental.

Saúde emocional também afeta a segurança

Pesquisas acadêmicas mostram que o estado emocional dos trabalhadores influencia diretamente a ocorrência de acidentes. Uma revisão de estudos publicada pela revista Disciplinarum Scientia, da Universidade Franciscana (UFN), identificou que cansaço extremo, sofrimento psicológico e uso de medicamentos afetam a atenção e aumentam o risco de falhas no trabalho. O levantamento foi feito por pesquisadores da UFN, da FURG e da UFSM, com base em dados hospitalares e questionários aplicados a trabalhadores.

Os números oficiais confirmam a dimensão do problema. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com algum transtorno mental, principalmente ansiedade e depressão. No Brasil, o crescimento dos afastamentos chama atenção. Em 2024, foram concedidas 472 mil licenças por problemas de saúde mental, aumento de 68% em relação ao ano anterior. Informações do INSS, citadas pelo Tribunal Superior do Trabalho, mostram que esses afastamentos cresceram 143% em 2025, o maior índice da última década.

Além dos afastamentos, as empresas também enfrentam perdas de produtividade. Estudos indicam que transtornos como ansiedade e depressão geram prejuízos bilionários no mundo todo. Um dos principais fatores é o chamado presenteísmo, quando o trabalhador continua atuando, mas com rendimento baixo por causa do desgaste emocional.

Da conscientização à obrigação legal

Para Francielli Vitali, Head de Negócios da Esset – Employer Saúde e Segurança do Trabalho, a saúde mental precisa ser vista como parte da segurança do trabalho. “Uma pessoa emocionalmente sobrecarregada tem mais dificuldade de manter a atenção e tomar decisões. Isso aumenta o risco de erros e acidentes”, afirma.

Segundo a especialista, o desafio está em ir além de ações pontuais. “Não basta falar de saúde mental apenas em campanhas. É preciso olhar para a rotina de trabalho, a carga de tarefas, as metas e a forma como as lideranças conduzem as equipes”, diz.

A legislação já acompanha esse movimento. A atualização Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que as empresas passem a identificar além dos riscos físicos, químicos, biológicos e de acidentes, também os riscos psicossociais, implementando ações de monitoramento e controle. Os riscos psicossociais envolvem situações como excesso de trabalho, metas difíceis de cumprir, assédio, relacionamento interpessoal, falta de pausas e desrespeito ao direito de desconexão.

Também houve atualização na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, que passou a reconhecer o adoecimento mental causado por ambientes organizacionais tóxicos. A exigência completa da avaliação desses riscos entra em vigor em maio de 2026, após um período de adaptação.

Para Vitali, empresas que se antecipam tendem a reduzir problemas no futuro. “Quando a saúde mental é tratada de forma preventiva, a empresa protege o trabalhador, promove bem estar, garante produtividade, melhora reputação organizacional e, como consequência, também reduz riscos de acidentes, doenças, afastamentos e custos com ações trabalhistas”, conclui.

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