
Se existe um “rock raiz”, ele tem na figura e na voz de Little Richard a sua própria expressão. Antes de Elvis começar a rebolar nos palcos de Memphis e ganhar Hollywood, Richard já arrebentava com o seu piano acompanhado das guitarras na noite americana, arrastando uma legião de jovens na década de 1950. Ao lado de Chuck Berry e Jerry Lee Lewis (ícones do ritmo) e outros músicos, eles quebraram regras e abriram o caminho para mitos como o próprio Elvis Presley, Beatles, Bob Dylan, os Rolling Stones, James Brown, para citar apenas alguns. Hoje, a sua irreverência e estilo, além do seu tempo, chegou ao fim da linha aos 87 anos. Vencido por um câncer nos ossos, ele partiu deixando um legado que viverá por gerações.
Pode se dizer que Richard era o cara. Ele tirou o público da zona de conforto e colocou para dançar o rock “n” roll. Fez uma transição do ritmo blues, do jazz, enfim, da música negra, dos afro-americanos escravos do Sul dos EUA, para o que chamamos hoje de rock and roll. Ele e Chuck Berry construíram essa revolução da música com um ritmo mais intenso, acelerado nas guitarras elétricas, piano e bateria, fugindo da tradicional batida ritmada do jazz, no rhythm and blues. Fez uma revolução cultural e comportamental na América, alçando o rock à categoria de maior fenômeno cultural da segunda metade do século 20. Todas as gerações posteriores tiveram a influência de Little Richard, de forma direta ou indireta.
Little Richard vendeu mais de 30 milhões de discos em todo o mundo e sua influência foi além daqueles que se seguiram a ele por décadas como Creedence Clearwater Revival e David Bowie. Nascido Richard Wayne Penniman, foi um dos nomes sagrados do ritmo conduzido pelas guitarras elétricas vencendo preconceitos e a política de segregamento racial no Sul do EUA, na Georgia, onde nasceu.
Como muitos outros de sua época, surgiu na música gospel americana. Dos templos para os palcos, Richard, pode-se se dizer, “tocou fogo no circo” quando lançou o clássico “Tutti Frutti”, obra com a sua assinatura que estourou nas paradas de sucesso num Estados Unidos racista e puritano da década de 1950.
— Acredito que esse será o meu legado, pois, quando eu comecei no show business, não havia nada parecido com o rock n’ roll — afirmou, em entrevista recente ao jornal espanhol El País.
A liberdade que a música lhe dava, no entanto, contrastava com a privação que a religiosidade lhe impunha, conflito que levaria por toda sua vida. Aprendeu a tocar saxofone e piano na adolescência, mesmo período em que começou a perder o interesse pela escola e a tocar em várias bandas.
Richard veio duas vezes ao Brasil, em 1994 e 97. E em uma delas, deu entrevista ao jornal O Globo, onde disse que havia conseguido conciliar o rock e a religião, algo que o incomodou em grande parte da sua vida. “Hoje, eu separo bem essas duas coisas, Deus e o rock, algo que não conseguia fazer na minha juventude. O rock é minha vida, meu trabalho, mas também acredito em Deus. Posso fazer um grande show e no dia seguinte ir à igreja rezar”.


