
O ouriveres Fabrício dos Santos Gonçalves foi o responsável pela operação da Polícia Federal (PF) do Amazonas que, na última quarta-feira (19), desencadeou a apreensão e a prisão de policiais civis amazonenses que integravam uma milícia acusada de comercializar ouro de garimpo do estado. Com 15 anos de atuação no mercado de outro em Manaus, o ouriveres participava do esquema.
Segundo a PF, os supostos envolvidos da organização criminosa cooptava pessoas que trabalhavam com o metal para manipular e revender ouro extraído ilegalmente em Boa Vista (RR), Humaitá (AM), Japurá (AM) e São Gabriel da Cachoeira (AM).
As investigações começaram após procurar a PF em 2021 prestar depoimento. Ele declarou que policiais civis o procuravam com frequência levando quantidades de ouro ilegal para que o metal fosse dividido em barras menores para facilitar a revenda.
A PF identificou que o ouro desviado vinha de apreensões realizadas por equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar em operações no interior do Amazonas e em Roraima. O metal ilegal, segundo os investigadores, era, então, era fracionado e transportado para São Paulo, onde empresas recebiam o produto para revenda.
“O transporte do minério até a capital [Manaus] era realizado por embarcações, caminhões e aeronaves, com apoio de agentes da segurança pública estadual, que garantiam o fluxo da carga ilícita”, disse a PF em nota sobre a operação.
O caso, segundo declarou Gonçalves, evoluiu para cobranças de pagamento pelo ouro repassado ao ourives. Ele afirmou, por exemplo, que um dos policiais envolvidos pressionava-o com exigências de pagamentos mensais de R$ 30 mil.
“Fabrício esclareceu que passou a sofrer cobrança e pressão psicológica por parte dos investigados, pois não conseguiu repassar os valores advindos da comercialização ilegal do ouro”, diz trecho da decisão judicial que autorizou as ações da operação.
Relatórios de análise financeira e troca de mensagens obtidas pela investigação mostraram que, entre março e outubro de 2021, foram movimentados quase R$ 1 milhão entre o ourives e suspeitos de integrarem a organização.
O controle dessas operações era feito por meio de registros em agendas, anotações enviadas em fotos e áudios trocados por aplicativos de mensagens.
Em um dos diálogos registrados, um dos policiais chega a “tomar postura ativa quanto à contabilidade”, temendo perder a confiança de outro integrante do esquema. Outro trecho revela planos de expansão das atividades ilegais.
As movimentações financeiras levantaram suspeitas por envolverem somas muito superiores à renda dos policiais. Apenas um dos investigados teria movimentado mais de R$ 3 milhões em 2021.
Parte dos valores era recebida por meio de depósitos fracionados e transferências eletrônicas feitas não só por Fabrício, mas também por empresa controlada por ele.
Na decisão da Justiça Federal que autorizou as buscas contra os dois policiais, consta que Fabrício compareceu novamente à PF em março de 2024 para afirmar que os policiais delatados por ele permaneciam “cobrando valores decorrentes do ouro ilegal”.
“Os envolvidos poderão ser responsabilizados pelos crimes de usurpação de bens da União , peculato , formação de milícia, organização criminosa, dentre outros crimes correlatos”, informou a PF.


