A presença de facções criminosas cresceu e chegou a 45% dos municípios que compõem a Amazônia Legal, indica pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Estudo destaca dinâmicas específicas em cada uma das cidades do Alto Solimões.

A região do Alto Solimões, no sudoeste do Amazonas, se consolidou como uma das principais rotas do tráfico internacional de drogas na Amazônia, com forte atuação e disputa de dois dos maiores grupos criminosos do país: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A análise aparece no Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado nesta quarta-feira (19) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Dados inéditos revelam também que 4 cidades do Amazonas estão entre as mais violentas da Amazônia:
- Rio Preto da Eva
- Coari
- Iranduba
- Tabatinga
A região concentra 281 mil habitantes, dos quais 54% são indígenas, e registra altos índices de vulnerabilidade social: mais de 80% da população está inscrita no CadÚnico e 64,7% recebe Bolsa Família.
A dependência do setor público é dominante, e apenas 12,8% das pessoas acima de 14 anos estão ocupadas, índice quatro vezes menor que o nacional. O território tem ainda 56% de sua área dentro de Terras Indígenas já homologadas.
Reconfiguração do crime após o fim da FDN
A atual disputa entre CV e PCC no Alto Solimões é resultado da reestruturação do crime organizado no Amazonas. A Família do Norte (FDN), que chegou a dominar o sistema prisional e o tráfico regional, foi praticamente exterminada após massacres, prisões e rupturas internas.
Com o enfraquecimento da facção, o Comando Vermelho avançou sobre áreas estratégicas a partir de 2018, assumindo rotas antes controladas pelos antigos aliados.
Esse movimento abriu espaço para o confronto silencioso com o PCC, que tenta ampliar sua presença sobre as rotas internacionais que passam pela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
Tríplice fronteira e Rota do Solimões
O estudo destaca que a tríplice fronteira é atualmente um dos principais corredores internacionais de produção e escoamento de cocaína. Dentro desse cenário, a Rota do Solimões se tornou um dos eixos mais estratégicos para o tráfico.
O documento aponta que:
O PCC se aproveita de pistas de pouso em garimpos ilegais e também de áreas localizadas dentro de unidades de conservação, ampliando o acesso a rotas terrestres e aéreas.
O Comando Vermelho mantém hegemonia nas rotas fluviais, especialmente no eixo do Rio Solimões, utilizando a circulação natural do rio para transportar cargas ilícitas e reforçar seu domínio territorial.
A calha do Solimões aparece no levantamento como um corredor em que a presença das facções impacta diretamente a vida dos moradores, pressiona municípios e aumenta o risco de confrontos.
Municípios sob pressão
O estudo destaca dinâmicas específicas em cada uma das cidades do Alto Solimões:
- Tabatinga concentra a maior parte da população e faz fronteira seca com Letícia (Colômbia), sem controle migratório. Em 2024, registrou 31 das 52 mortes violentas da região, com taxa de 42,9 por 100 mil habitantes. Autoridades relatam redução de confrontos após a hegemonia do Comando Vermelho, mas com violência “seletiva” e expansão de pontos de consumo.
- Benjamin Constant funciona como eixo entre Tabatinga e Atalaia do Norte, com circulação intensa de embarcações e jovens considerados alvos fáceis de aliciamento.
- Atalaia do Norte tem território amplo, marcado por rotas florestais usadas pelo tráfico e aumento da movimentação noturna de lanchas.
- São Paulo de Olivença é ponto intermediário do fluxo do Solimões, com registros de abordagens armadas a embarcações.
- Amaturá,
- Santo Antônio do Içá,
- Tonantins,
- Fonte Boa
- Jutaí – possuem baixa presença estatal e rios menores que funcionam como rotas alternativas para o escoamento de drogas e para crimes ambientais.
Fronteira porosa e logística fluvial alimentam o narcotráfico
A fronteira seca entre Tabatinga e Letícia é descrita como completamente aberta: pessoas, motos, carros e mercadorias cruzam livremente, facilitando o transporte de drogas, armas e valores.
Do lado peruano, localidades como Caballococha e Bellavista produzem pasta base; do lado colombiano, as plantações se concentram nas bacias dos rios Içá e Japurá. Todas as rotas convergem para o Solimões, de onde a droga segue para Manaus e outras regiões do país.
A confluência geográfica, porosa e praticamente sem fiscalização transforma o Alto Solimões em porta de entrada da pasta base produzida nessas áreas do Peru e da Colômbia.
Segundo o estudo, a logística opera em dois ecossistemas complementares:
Urbano, que funciona como centro de comando, lavagem de dinheiro e distribuição;
Fluvial-florestal, no qual rios, igarapés e trilhas na mata são instrumentalizados para transportar cocaína, ouro, madeira e pescado ilegal.
O crime utiliza:
- Lanchas rápidas e blindadas;
- Barcos com compartimentos secretos;
- Atravessadores indígenas em trechos menores;
- Trilhas florestais usadas na estiagem;
- Rotas ocultas que se abrem durante a cheia.
As 17 facções identificadas na Amazônia:
Comando Vermelho (CV);
Primeiro Comando da Capital (PCC);
Amigos do Estado (ADE);
Bonde dos 40 (B40);
Primeiro Comando do Maranhão (PCM);
Famílai Terror do Amapá (FTA);
União Criminosa do Amapá (UCA);
Comando Classe A (CCA);
Bonde dos 13 (B13);
Bonde dos 777 (dissidência do CV);
Tropa do Castelar;
Piratas do Solimões;
Bonde do Maluco (BDM);
Guardiões do Estado (GDE);
Tren de Araguá (Venezuela);
Estado Maior Central (ECM, da Colômbia);
Ex-Farc Acácio Medina (Colômbia).
Influência de Beira Mar e forças colombianas
O Exército da Colômbia aponta que o narcotráfico na Amazônia mudou nos anos 2000, quando Fernandinho Beira-Mar estabeleceu ligações diretas com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Preso atualmente no Presídio Federal de Segurança Máxima de Catanduvas, onde cumpre mais de 300 anos de pena, Beira-Mar teria permitido que traficantes brasileiros acessassem a logística das FARC, incluindo laboratórios e rotas fluviais.
O movimento impulsionou a expansão das facções no interior do Amazonas e fortaleceu grupos locais, como os Piratas do Solimões. Segundo um pesquisador, Beira-Mar eliminou intermediários e passou a operar rotas próprias a partir da estrutura controlada pelas FARC.
Apreensões recordes
O órgão destacou o recorde de apreensões de drogas em 2024, com 43,2 toneladas retiradas de circulação, e citou investimentos em estrutura, tecnologia e efetivo das forças policiais. A secretaria reforçou que as operações seguem fortalecidas em Manaus e no interior.


