
Empresas do setor naval amazonense aumentaram a produção de embarcações de menor calado, que são capazes de operar mesmo com níveis reduzidos dos rios, após experiências desafiadoras no transporte de mercadorias nas secas extremas de 2023 e 2024.
Em janeiro deste ano, o setor registrou crescimento de 405% no faturamento em relação a janeiro de 2024, conforme dados do Painel Econômico do Amazonas, levantamento do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas). Em relação a dezembro de 2024, o crescimento foi de 741%.
O transporte hidroviário em Manaus inclui tanto produtos fabricados no Polo Industrial para exportação quanto insumos e componentes para as fábricas, além de alimentos e combustíveis. Navios de grande porte vindos de outros países pelo Oceano Atlântico, por exemplo, navegavam pelo Rio Amazonas para chegar até a capital amazonense com cargas.
Na seca de 2023, alguns trechos do rio ficaram intrafegáveis. A Marina do Brasil restringiu a navegação à noite para evitar acidentes. O governo federal contratou empresa para fazer dragagem nos pontos críticos, mas a solução foi a mudança no transporte hidroviário.
Como alternativa, empresas instaladas no PIM (Polo Industrial de Manaus) usaram balsas para trazer insumos deixados por navios em portos no Pará.

Em 2024, o Governo do Amazonas autorizou a instalação de porto provisório em Itacoatiara (município a 175 quilômetros de Manaus). O local foi usado como ponto de transferência de cargas trazidas por navios de grande porte para balsas que seguiam até a capital amazonense e vice-versa.

No contexto da região amazônica, o modal se mostrou mais econômico que o rodoviário. A saída dos grãos do centro-oeste por água (rios Madeira e Amazonas), por exemplo, substitui 1.500 carretas com um frete muito mais barato.
De acordo com dados do Painel Econômico do Amazonas, a demanda por embarcações de menor calado acelerou as encomendas e impulsionou a produção nos estaleiros locais, “consolidando o setor como um dos protagonistas da retomada industrial da região em 2025”.
Cerca de 14 estaleiros operam no setor naval de Manaus, entre eles as empresas Bertolini e Eram. Elas produzem embarcações fundamentais para a navegação interior, como balsas, empurradores e embarcações de alumínio, que abastecem portos estratégicos da região, como Super Terminais e Chibatão, além de atender a grandes armadores internacionais, como Aliança e CMA-CGM.
A produção naval de Manaus está centrada em três tipos principais de balsas: para contêineres, para grãos sólidos (como soja e milho) e para grãos líquidos (como combustíveis). Essas embarcações são adaptadas às particularidades da navegação interior na Amazônia, especialmente nos períodos de estiagem.
Agronegócio
Os rios da Amazônia também interligam a Região Metropolitana de Manaus, onde se concentra a atividade econômica do Amazonas, com outros estados brasileiros. O Rio Madeira, por exemplo, é uma alternativa à precária rodovia BR-319, que interliga Manaus a Porto Velho (RO).
De acordo com o estudo do Cieam, a guinada no mercado naval registrada neste ano é impulsionada pela crescente demanda do agronegócio do centro-oeste brasileiro, especialmente pela soja. A safra de 2025 deve bater recorde histórico, com estimativa de 164,4 milhões de toneladas — um aumento de 13,4% em relação ao ano anterior, segundo o IBGE.
Parte expressiva dessa produção é escoada por meio de balsas fabricadas no polo industrial de Manaus, que percorrem os rios amazônicos até se conectarem com embarcações maiores rumo ao mercado europeu.
“A indústria naval de Manaus evoluiu de um setor periférico para um elo logístico estratégico, conectando o coração do agronegócio brasileiro às rotas internacionais de exportação”, afirmou o professor André Ricardo Costa, coordenador da Área de Indicadores do Cieam e autor do estudo.
“O polo naval da Zona Franca de Manaus mostra como a indústria amazonense pode responder com agilidade às demandas do mercado nacional, agregando inovação logística, geração de empregos e integração com o agronegócio do Centro-Oeste”, afirma Luiz Augusto Rocha, presidente do Cieam.
As secas extremas registradas nos dois últimos anos obrigaram o uso de embarcações menores para garantir a continuidade das atividades econômicas principalmente no PIM.
O uso de barcaças para o transporte de mercadorias foi essencial para que o estado amazonense mantivesse as atividades econômicas e driblasse os riscos de recessão em 2024, ano em que o PIM (Polo Industrial de Manaus) registrou o melhor faturamento dos últimos seis anos e mais empregos.