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Apagões e reajustes: Aneel convoca setor elétrico para discutir, em Manaus, ações contra El Niño

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que agendou uma reunião com agentes do setor elétrico, empresas e órgãos governamentais para discutir ações de preparação diante do super El Niño previsto para este ano.

O encontro está marcado para a próxima segunda-feira (22), na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus (AM). A agenda consta em ofício enviado pelo gabinete do diretor-geral da Agência ao Ministério de Minas e Energia (MME) na última sexta-feira (12).

A Aneel informou que vem adotando uma série de medidas para reforçar a preparação do setor elétrico. O risco de seca prolongada no Norte pode impactar a navegação e logística fluvial, especialmente o escoamento da produção da Zona Franca de Manaus e o aumento da tarifa de energia.

No documento, a reguladora destaca que as previsões dos órgãos meteorológicos apontam a possibilidade de ocorrência do fenômeno climático, o que exige planejamento antecipado, especialmente em regiões e instalações mais vulneráveis a eventos extremos.

A Agência também informou que encaminhou, no início deste mês, ofícios a empresas de geração, transmissão e distribuição de energia solicitando a adoção de ações preventivas.

Entre as recomendações estão o reforço da resiliência das infraestruturas elétricas e a revisão dos planos de contingência, sobretudo para o período entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, quando é esperada uma maior incidência de eventos climáticos severos associados ao fenômeno.

Super El Niño

O Super El Niño é uma versão mais intensa do fenômeno climático El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento atinge níveis elevados, os impactos sobre o clima tendem a ser mais severos e abrangentes.

No Brasil, o fenômeno costuma alterar significativamente os padrões de chuva e temperatura. Dependendo da região, pode provocar períodos prolongados de estiagem, chuvas acima da média, tempestades intensas, enchentes e ventos fortes.

Por esse motivo, a Aneel, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e as empresas do setor vêm reforçando planos de contingência e medidas preventivas para reduzir os impactos do fenômeno.

Isso porque eventos climáticos extremos associados ao super El Niño podem causar danos a linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição, além de aumentar o risco de interrupções no fornecimento de energia.

Alerta de risco

De acordo com a Climatempo, a maior e mais reconhecida empresa de consultoria meteorológica e de previsão do tempo do Brasil e da América Latina, o El Niño deve ganhar influência mais evidente sobre o Brasil durante a primavera e o verão, trazendo o alerta de previsão de chuvas acima da média na região Sul, de maior risco de estiagem em áreas do Norte e do Nordeste, de calor persistente no Centro-Oeste e no Sudeste e de aumento da variabilidade climática em regiões produtoras e nos centros urbanos.

Caracterizado pelo aquecimento acima do esperado das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño altera a circulação atmosférica global e tende a modificar a distribuição das chuvas, intensificar episódios de calor e elevar o risco de ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do País.

No Sul, episódios de chuva volumosa e frequente podem aumentar o risco de enchentes, alagamentos, deslizamentos, interrupções logísticas e perdas em lavouras sensíveis ao excesso de umidade. No Norte e no Nordeste, a tendência é de redução das chuvas em parte das áreas, com possibilidade de estiagens mais prolongadas, queda na disponibilidade hídrica, pressão sobre reservatórios e aumento do risco de queimadas. No Centro-Oeste e no Sudeste, o cenário exige atenção para ondas de calor, atraso ou irregularidade no retorno das chuvas e maior demanda por energia em períodos de temperatura elevada.

Com a confirmação do El Niño, que na avaliação da Climatempo tende a ser forte para muito forte, com intensidade comparável ao fenômeno de 2023, os setores da economia devem redobrar o monitoramento em busca de dirimir os principais impactos.

No setor de energia, as temperaturas mais altas tendem a elevar o consumo de eletricidade, especialmente por conta do uso de aparelhos de refrigeração. Ao mesmo tempo, a irregularidade das chuvas pode afetar reservatórios e exigir planejamento mais cuidadoso do sistema elétrico. Há ainda o risco de atraso no início do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 70% da produção hidrelétrica.

Para o agronegócio, o excesso de chuvas no Sul pode dificultar a colheita, o plantio e o manejo contra pragas e infestações, enquanto a redução de umidade em áreas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste pode afetar culturas dependentes de chuva, elevar custos de irrigação e aumentar a volatilidade de preços de alimentos.

Na logística, transportes e infraestrutura, a preocupação é com as chuvas intensas, que podem comprometer rodovias, ferrovias, portos, áreas urbanas e operações de distribuição. Por outro lado, períodos secos aumentam riscos de poeira, queimadas e restrições operacionais.

Nos setores de construção civil, mineração e indústria a escassez de água pode impactar processos produtivos, cronogramas de obras e custos operacionais. Já os temporais intensos elevam o risco de paralisações de operações e danos a estruturas.

O varejo, saúde e serviços deverá ser mais impactado pelas ondas de calor, que podem alterar padrões de consumo, aumentar a procura por climatização e hidratação, elevar riscos à saúde e exigir planos de contingência para trabalhadores e consumidores.

Em relação ao abastecimento de água e saneamento, as estiagens prolongadas previstas podem pressionar mananciais, reservatórios urbanos e sistemas de captação, exigindo gestão preventiva e campanhas de uso racional do insumo.

“A recomendação é que empresas e gestores públicos revisem planos de contingência, reforcem o acompanhamento de previsões de médio e longo prazo, avaliem vulnerabilidades regionais e integrem informações de inteligência climática às decisões operacionais”, afirma Pedro Regoto, Head de Operações da Climatempo. Ele alerta que a antecipação é essencial para proteger pessoas, ativos, produção, abastecimento e infraestrutura.

Regoto destaca que eventos extremos registrados no último El Niño de 2023 e 2024 não necessariamente vão se repetir, pois foram influenciados por outros fenômenos combinados e não apenas pelo El Niño. “O El Niño aumenta o potencial para eventos mais severos, mas não é possível adiantar com tanta antecedência, sendo necessário o acompanhamento das previsões no curto prazo”, finaliza.

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