Estudo inédito do Unicef revela que secas extremas, fumaça e falta de saneamento básico colocam mais de 40% dos municípios amazonenses em nível de emergência máxima.

O Amazonas é o segundo estado brasileiro onde crianças e adolescentes estão mais expostos aos impactos das mudanças climáticas e da degradação ambiental. O alerta vem do estudo “Painel Crianças e Meio Ambiente”, publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com a organização Vital Strategies.
No ranking nacional de vulnerabilidade, o Amazonas fica atrás apenas do Pará, integrando o bloco de emergência máxima no país. O levantamento mostra uma realidade alarmante: 42,4% dos municípios amazonenses apresentam 10 ou mais indicadores no nível crítico de alerta, o patamar mais alto de gravidade do indicador.
Uma tempestade perfeita: a sobreposição de crises
Segundo o Unicef, a alta vulnerabilidade do estado não é resultado de um único fator, mas da combinação violenta de crises ambientais com gargalos estruturais históricos.
No interior do estado — especialmente nas calhas dos rios Negro, Solimões e Juruá —, a oscilação extrema do nível das águas tem isolado comunidades inteiras durante as secas históricas. Esse isolamento provoca um efeito cascata imediato na vida das crianças:
- Educação interrompida: o transporte escolar fluvial é paralisado por falta de navegabilidade.
- Saúde e abastecimento: o acesso a serviços básicos de saúde é cortado e a água potável deixa de chegar às famílias.
A essa crise hídrica soma-se a degradação da qualidade do ar. As queimadas sazonais, que atingem com especial severidade o sul e o oeste do Amazonas, cobrem as cidades com fumaça tóxica, disparando as taxas de internação pediátrica por problemas respiratórios.
Para fechar o diagnóstico, o estudo destaca o histórico déficit sanitário do estado. A falta de saneamento básico e o esgotamento sanitário inadequado mantêm meninos e meninas em constante contato com contaminação, elevando a incidência de Doenças de Veiculação Hídrica (DVH).
O cenário na capital: Manaus concentra o maior número de afetados
Se o interior sofre com a severa falta de infraestrutura, Manaus concentra o maior volume absoluto de jovens em situação de risco. Cerca de 31,8% da população da capital tem entre 0 e 17 anos — e essa parcela vive sob alerta alto em pelo menos metade dos indicadores ambientais analisados.
Na maior metrópole da Amazônia, os riscos assumem contornos urbanos:
- Escolas em “ilhas de calor”: metade das creches e unidades de ensino da capital está situada em locais com alto estresse térmico e pouca ou nenhuma arborização.
- Acúmulo de poluição: durante a estiagem, a fumaça de queimadas da Região Metropolitana fica retida sobre a cidade, agravando problemas respiratórios infantis.
- Ocupação e alagamentos: o adensamento populacional em áreas de risco — como encostas e margens de igarapés — expõe as crianças a deslizamentos, acidentes e contaminação por enchentes após chuvas intensas.
Como funciona o mapeamento do Unicef
O Painel Crianças e Meio Ambiente cruzou dados oficiais de órgãos públicos de saúde, meio ambiente e saneamento para classificar os municípios brasileiros em três níveis de gravidade:
- Nível 3 (Crítico): Exige atenção emergencial e intervenções prioritárias imediatas.
- Nível 2 (Médio): Demanda planejamento e ações progressivas de curto a médio prazo.
- Nível 1 (Baixo): Requer monitoramento contínuo, sem necessidade de ações emergenciais.
Quanto maior o acúmulo de indicadores no Nível 3 ao mesmo tempo, mais urgente é a necessidade de políticas públicas voltadas para proteger a infância e a adolescência frente às emergências climáticas.


