Penas somadas ultrapassam 69 anos de prisão. Entre os condenados estão a mãe e o irmão da ex-sinhazinha do Boi Garantido, apontados como líderes do esquema que utilizava uma seita religiosa e salões de beleza para distribuição do anestésico

A Justiça do Amazonas condenou, nesta quarta-feira (22), sete pessoas investigadas por integrar um esquema de tráfico e aplicação indiscriminada de cetamina em Manaus. Entre os condenados estão Cleusimar Cardoso Rodrigues e Ademar Farias Cardoso Neto, mãe e irmão de Djidja Cardoso, ex-sinhazinha do Boi Garantido encontrada morta em maio de 2024 em decorrência do uso abusivo da substância. As penas aplicadas variam de 8 anos e 6 meses a 10 anos e 11 meses de reclusão.
A decisão foi proferida pela juíza Roseane do Vale Jacinto Cavalcante, da 3ª Vara Especializada em Crimes de Uso e Tráfico de Entorpecentes (Vecute), dez meses após o processo anterior ter sido anulado por falhas na condução e retornar à primeira instância a pedido do Ministério Público. Com a regularização das perícias, a magistrada concluiu haver provas suficientes sobre a materialidade dos crimes e a responsabilidade dos réus.
Seita religiosa e anestésico veterinário
As investigações da Operação Mandrágora revelaram que o grupo utilizava a rede de salões de beleza Belle Femme e a seita religiosa “Pai, Mãe, Vida” para incentivar o consumo do anestésico veterinário. Nos rituais da seita, os integrantes usavam pretextos de “cura espiritual” e “elevação” para convencer amigos e funcionários a consumirem a substância em doses elevadas.
Depoimentos colhidos no inquérito relataram ainda episódios de cárcere privado e abusos sexuais contra vítimas sob o efeito do alucinógeno.
As condenações e o regime das penas
A sentença estabeleceu as seguintes penas para os envolvidos:
- Cleusimar Cardoso Rodrigues (mãe): 10 anos e 11 meses de reclusão (regime fechado) — Apontada como a principal articuladora do esquema.
- Ademar Farias Cardoso Neto (irmão): 10 anos e 11 meses de reclusão (regime fechado) — Indicado como o “braço executivo” da organização.
- José Máximo Silva de Oliveira (veterinário): 10 anos e 4 meses de reclusão (regime fechado) — Proprietário da clínica MaxVet, responsável pelo fornecimento ilegal da droga.
- Hatus Moraes Silveira (personal trainer): 10 anos e 5 meses de reclusão (regime fechado) — Atuava na logística do grupo.
- Verônica da Costa Seixas (gerente): 10 anos de reclusão (regime fechado) — Auxiliava na aquisição e ocultação dos produtos.
- Sávio Soares Pereira (atendente de clínica): 9 anos de reclusão (regime semiaberto) — Responsável por negociações via aplicativo de mensagens.
- Bruno Roberto da Silva Lima (ex-namorado): 8 anos e 6 meses de reclusão (regime fechado) — Apoiava a logística e incentivava o uso da substância.
Situação cautelar: Cleusimar, Ademar, José Máximo e Hatus tiveram a prisão preventiva mantida e não poderão recorrer em liberdade. Já Verônica, Sávio e Bruno poderão aguardar os recursos fora da prisão, mediante uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares.
Réus absolvidos e o laudo de Djidja
A decisão absolveu três réus por falta de provas quanto à participação nos crimes de tráfico ou associação: o motoboy Emicley Araújo Freitas e os maquiadores Claudiele Santos da Silva e Marlisson Vasconcelos Dantas.
Djidja Cardoso foi encontrada morta em sua residência no dia 28 de maio de 2024. O laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML) apontou causa da morte por edema cerebral que levou a uma parada cardiorrespiratória, sob forte suspeita de overdose de cetamina. No dia do óbito, policiais apreenderam frascos do medicamento enterrados no quintal do imóvel, além de seringas e bulas espalhadas pela propriedade.


