Produção marca os 125 anos do assassinato de Etelvina de Alencar, morta em 1901 na então Colônia Campos Sales.

O Cemitério São João Batista, em Manaus, recebe, na próxima sexta-feira (15), às 20h, a estreia de Etelvina – A Ressignificação da Tragédia. O documentário, marca os 125 anos do assassinato de Etelvina de Alencar, morta em 1901 na então Colônia Campos Sales, região onde hoje se situa o bairro que leva seu nome.
O filme percorre esse período por meio da história de Manaus para acompanhar como fiéis peregrinam até seu túmulo e ressignificaram sua morte trágica e violenta, transformando-a na chamada “Santa Etelvina”, em razão das graças a ela atribuídas.
É a primeira vez em que será montada uma estrutura de exibição cinematográfica em um cemitério no Amazonas. O diretor afirma que a escolha por realizar a estreia no cemitério não tem a intenção de transformar aquele espaço em um cenário. É, na verdade, a extensão da proposta do próprio filme, pois ali está guardada parte da memória de Etelvina de Alencar. Segundo Marinho, “É posicionamento.
A arte e a cultura têm o poder de transformar um espaço de luto em um espaço de escuta, de converter a ausência em presença e o silêncio em voz. O cemitério é um acervo a céu aberto, onde a memória resiste, onde a tristeza, o amor e a fé se manifestam em resiliência. Por que não ressoar a arte para deslocar sentidos, vislumbrando a cultura de um lugar?”
Inaugurado em 1890, o cemitério está localizado na zona Centro-Sul de Manaus e foi reconhecido como Patrimônio Histórico do Estado do Amazonas. O tombamento se deve ao conjunto de suas construções, como a capela em estilo gótico, os pórticos e as sepulturas que apresentam relevância religiosa, histórica, cultural e arquitetônica. O espaço reúne diferentes técnicas construtivas e materiais característicos de épocas passadas, incluindo cerâmica inglesa,
Esculturas artísticas e acabamentos marmorizados. Entre os elementos preservados, destaca-se o antigo gradil, montado com rebites de ferro e anéis decorativos de chumbo, utilizados para reforçar a estrutura em um período anterior à solda elétrica. O cemitério também mantém um extenso acervo documental, com registros de sepultamentos que remontam a 1882.
O filme dirigido por Cleinaldo Marinho e produzido pela CM ArteCultura & Produções, faz parte de um conjunto de trabalhos do diretor em torno de trajetórias femininas apagadas ou marginalizadas na história do Amazonas. Embora o termo feminicídio seja recente, o documentário evidencia que as estruturas que o definem, como o controle, a posse, o ciúme e a dominação, atravessam gerações. “O feminicídio é o assassinato de mulheres por serem mulheres. O caso da Etelvina reúne todos esses elementos. Ao revisitar o episódio, mostramos que essa violência é histórica e ainda persiste”, diz Marinho.
Em trabalhos anteriores, o diretor voltou-se para a vida da poetisa Violeta Branca, a primeira mulher a ingressar na Academia Amazonense de Letras, no espetáculo teatral Ritmos de Inquieta Alegria, baseado no livro homônimo. Em Ária – Fazendo a Vida Viver, reconstruiu a memória de Ária Ramos, artista de futuro promissor que teve fim trágico na Manaus da Belle Époque. Com o mesmo compromisso, “trazer essas histórias para o centro, não apenas como personagens individuais, mas como expressões de contextos sociais, culturais e políticos mais amplos. Ao revisitar essas trajetórias, buscamos também reequilibrar narrativas e ampliar o repertório de memória da região”, reforça o diretor.
A atriz Rosana Neves, que já havia trabalhado com Marinho em Ária, retorna como protagonista na estrutura ficcional do filme. “Foi um processo de descoberta, construção e responsabilidade. O que fica para mim é a força dessa mulher, que agora também faz parte da minha história como atriz”, diz ela.


