Com risco de nova estiagem severa no Amazonas, empresas antecipam estoques e debate sobre BR-319 ganha força para mitigar prejuízos logísticos.

A possibilidade de um El Niño mais intenso a partir do segundo semestre reacendeu o sinal de alerta entre empresários, especialistas e autoridades no Amazonas. Projeções do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e da Defesa Civil do estado, divulgados nesta segunda-feira (27), indicam um risco elevado de uma nova estiagem severa. O cenário ameaça a navegação pelos rios da região — a principal artéria logística para o escoamento e abastecimento do Polo Industrial de Manaus (PIM).
Como cerca de 95% dos insumos e produtos da Zona Franca dependem do transporte fluvial, qualquer diminuição drástica nos níveis d’água afeta diretamente o fluxo de mercadorias, elevando custos e atrasando entregas.
Setores Mais Vulneráveis e Estratégias Preventivas
Os impactos tendem a ser mais severos para indústrias altamente dependentes da navegação de longo curso para a importação de componentes. Entre os segmentos mais expostos estão:
- Eletroeletrônicos: Fabricantes de ar-condicionado e televisores.
- Duas Rodas: Indústria de motocicletas.
- Importadores: Empresas dependentes de insumos via rotas marítimas e fluviais de contêineres.
Para evitar paralisações na linha de produção, o setor produtivo já iniciou movimentos preventivos. Segundo Augusto César Barreto Rocha, coordenador da Comissão de Logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), as empresas estão antecipando compras internacionais, formando estoques estratégicos e readequando o planejamento logístico para o período de vazante.
O Peso Financeiro da Seca
O histórico recente serve de alerta. Durante a crise hídrica de 2023, os custos extras assumidos exclusivamente pela indústria local somaram cerca de R$ 1,4 bilhão.
Gargalos mais frequentes durante a estiagem:
- Cobrança da “taxa de seca” por companhias de navegação;
- Aumento generalizado no valor do frete marítimo e fluvial;
- Necessidade de transbordos intermediários em portos alternativos;
- Maior consumo de combustível e elevação dos custos de armazenagem.
BR-319 de Volta à Pauta
A iminência de novos gargalos logísticos trouxe novamente ao debate a recuperação da BR-319, rodovia que conecta Manaus a Porto Velho (RO). Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, a via é uma alternativa fundamental para quebrar o isolamento do estado.
Com a rodovia recuperada, o tempo de transporte de cargas entre Manaus e o restante do país poderia cair de até 30 dias para cerca de 3 a 5 dias. Contudo, as obras de pavimentação seguem estagnadas devido a imbróglios e disputas judiciais envolvendo o licenciamento ambiental.
Riscos Monitorados e Ações Governamentais
Apesar de a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) indicar que o El Niño deve ganhar força até o fim do ano, especialistas ressaltam que ainda não é possível cravar se a seca atingirá os mesmos patamares críticos observados em 2023 ou 2024. Um ponto a favor é que o ciclo hidrológico atual começou em patamares mais elevados.
Por sua vez, o Governo do Amazonas informou que monitora a situação por meio do Comitê de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais. As medidas incluem a liberação de licenças ambientais para dragagem em trechos críticos das hidrovias federais, planejamento de ações emergenciais e logística de assistência humanitária para os municípios e comunidades ribeirinhas, que costumam sofrer com o desabastecimento de itens básicos durante os picos de estiagem.


