Programas estruturados permitem acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, identificar talentos e criar uma base de futuros colaboradores alinhados à cultura das organizações

Por muito tempo, o estágio foi associado principalmente à primeira experiência profissional e à oportunidade de o estudante colocar em prática os conhecimentos aprendidos em sala de aula. Nas empresas, também era comum que o estagiário fosse visto como alguém responsável por apoiar atividades operacionais enquanto adquiria experiência. Esse cenário, no entanto, vem mudando. Cada vez mais, organizações passaram a enxergar o estágio como uma ferramenta estratégica para formação de profissionais, identificação de talentos e construção de equipes para o futuro.
Quando estruturado com acompanhamento, capacitação e perspectivas de desenvolvimento, o programa de estágio pode funcionar como uma espécie de porta de entrada para uma carreira dentro da própria empresa. A lógica deixa de ser apenas preencher uma vaga temporária e passa a envolver a formação de um banco de talentos, a aproximação dos estudantes com a cultura organizacional e a identificação antecipada de profissionais com potencial para assumir novas responsabilidades.
Para a supervisora do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE , no Amazonas, Inaê Huppes, essa transformação amplia a importância do estágio tanto para os estudantes quanto para as organizações. Segundo ela, empresas que adotam programas estruturados conseguem acompanhar a evolução dos jovens profissionais e identificar, ainda durante a formação, aqueles que apresentam potencial para futuras posições.
De acordo com Inaê Huppes, a experiência permite que o estudante desenvolva competências técnicas e comportamentais ao mesmo tempo em que conhece os processos, valores e a dinâmica da organização. Esse contato prolongado também oferece à empresa a oportunidade de conhecer melhor o profissional antes de uma eventual contratação. “É muito diferente contratar alguém já formado e tentar adaptá-lo à organização do que acompanhar a formação profissional de alguém desde o início”, afirma.
A estratégia também beneficia as empresas. Entre os resultados possíveis estão a formação de um banco de talentos interno, maior aderência aos processos e à cultura da organização, redução de riscos relacionados à contratação e renovação das equipes, já que os jovens também podem contribuir com novos conhecimentos, perspectivas e repertórios. Outro ponto importante é a possibilidade de sucessão e aproveitamento interno. Ao acompanhar o profissional desde o início da carreira, a empresa consegue identificar competências e interesses que podem ser aproveitados futuramente em diferentes áreas.
Aposta no desenvolvimento ¬– Um exemplo dessa estratégia é o Instituto de Pesquisas Eldorado, que mantém um Programa de Estágio desde 2020 em Manaus. A iniciativa foi criada com o objetivo de oferecer oportunidades de aprendizado e desenvolvimento profissional para estudantes e contribuir para a formação de novos talentos. Com o crescimento do número de estagiários, a unidade decidiu ampliar a estrutura do programa.
Atualmente, cerca de 100 estagiários integram o programa, nos períodos da manhã e da tarde. Eles participam de encontros com lideranças da instituição, que compartilham experiências, conhecimentos e cases de sucesso. O acompanhamento também envolve o setor de Recursos Humanos e a Universidade Corporativa.
Para Ana Maria, representante do setor de Recursos Humanos do Instituto Eldorado, a estrutura criada pela instituição permite que o estágio vá além da experiência prática e se transforme em uma etapa de preparação para o futuro profissional. Na organização, os estagiários participam de encontros trimestrais com lideranças, nos quais são abordados temas relacionados ao desenvolvimento profissional, tendências do mercado, tecnologias e experiências da própria instituição. Paralelamente, o RH realiza acompanhamentos periódicos para avaliar a evolução dos participantes, apoiar o desenvolvimento e identificar oportunidades de crescimento.
Os resultados ajudam a dimensionar o impacto da iniciativa. Aproximadamente 70% dos estagiários são efetivados ao final do programa. O índice reforça a importância do estágio como uma das estratégias utilizadas pela instituição para formar e reter profissionais.
Talento – A identificação de talentos não acontece apenas no momento em que surge uma vaga. No Eldorado, o acompanhamento é realizado durante toda a jornada de estágio. Lideranças e profissionais de RH observam não apenas os resultados das atividades, mas também a maneira como os estudantes lidam com os desafios cotidianos.
Entre os aspectos considerados estão comprometimento, interesse em aprender, proatividade, capacidade de trabalhar em equipe e alinhamento com os valores da instituição. Na avaliação para uma eventual efetivação, também entram fatores como responsabilidade, iniciativa, qualidade das entregas, relacionamento com os colegas, adaptação à cultura organizacional e interesse em construir uma trajetória profissional na empresa.
“A decisão pela efetivação vai além do desempenho técnico. Buscamos profissionais que demonstrem vontade de aprender, responsabilidade, iniciativa e capacidade de se desenvolver continuamente”, explica Ana Maria.
O contato prolongado com a organização pode produzir outro efeito importante: o fortalecimento do sentimento de pertencimento. Profissionais que começam a carreira como estagiários chegam à efetivação já familiarizados com os processos, as equipes e a forma de trabalho da empresa. “Na empresa, a percepção é de que essa experiência contribui para uma adaptação mais rápida e natural dos profissionais efetivados e pode favorecer o engajamento com os objetivos da organização”, acrescenta.


