Futebol para aliviar a dor: como os meninos do Brumadinho FC tentam superar a tragédia

No dia 16 começa o campeonato Brasileirinho, entre times de Minas Gerais.

Cerca de 60 de Brumadinho participaram da 5ª Copa DO Alto Paranaíba de Futebol, competição de categorias de base. Além de times de Minas Gerais, há equipes de São Paulo, Goiás e até Rondônia, mesmo após saberem da tragédia e fizeram bonito na competição, aliviando a dor no futebol.

A viagem para São Gotardo começou a ser programada em novembro do ano passado. Os times escalados foram o Sub-16, Sub-13 e Sub-11. A princípio viajariam na sexta, quando a maioria das equipes chegaria. Mas por uma questão de organização, o Brumadinho decidiu enviar os times um dia antes.

Na tarde de sexta-feira, enquanto os jogadores almoçavam em um refeitório adaptado para a competição, ao lado, o técnico Wandercley Eller fazia as inscrições dos atletas. Neste momento, recebeu a primeira mensagem avisando sobre o rompimento da barragem de Córrego do Feijão. Em seguida, o grupo dos pais no Whatsapp entrou em polvorosa. Com o susto, Wandercley resolveu sentar e respirar. Mas as notícias também chegaram para os meninos, que procuravam o técnico em busca de mais informações.

– Na hora, a gente assustou, começou a ligar para os conhecidos. Corremos para a igreja, para fazer oração. Depois nós fomos para pracinha respirar. É um lugar mais calmo, porque no refeitório tinha outras equipes, iriam perguntar. Desgraça vem rápido, não tem jeito – contou Wandercley.

Na praça de São Gotardo, os meninos mais novos, do Sub-11, percebiam uma tensão, mas brincavam distraídos, enquanto os mais velhos estavam agitados tentando falar com seus familiares.

– A única coisa que eu sabia é que a barragem estourou, na hora que estourou liguei para o meu pai, para minha mãe, eles trabalham em lugares diferentes e vi o que estava acontecendo. Explicaram pouco. Disseram que estavam como apocalipse. Todo mundo desesperado na rua, querendo sair e isso só me abalou – explicou Caio Goline, de 14 anos.

Nas horas seguintes, as equipes de resgate começaram as buscas. Iniciou-se a contagem do número de desaparecidos. De longe, os meninos souberam que seus pais e irmãos estavam bem, mas alguns deles tinham parentes desaparecidos.

RAZÕES PARA FICAR

O campeonato começaria no dia seguinte. Ainda atribulado, o técnico estava indeciso sobre voltar a Brumadinho ou permanecer em São Gotardo. Mas após conversar com os pais, ficou decidido que seria melhor para os garotos ficar ali, onde não seriam uma preocupação a mais nem teriam contato com o desastre, que ainda causava medo aos moradores da cidade, preocupados com o possível rompimento de outra barragem.

Hailton ficou preocupado com o primo ao saber do rompimento da barragem — Foto: Reprodução Hailton ficou preocupado com o primo ao saber do rompimento da barragem — Foto: Reprodução

Hailton ficou preocupado com o primo ao saber do rompimento da barragem — Foto: Reprodução

Hailton Lenon Carvalho, de 11 anos, ligava para mãe com frequência para saber se haviam achado seu primo. Fabrício Henriques da Silva, de 27 anos, trabalhava em uma terceirizada da Vale e estava na lista de desaparecidos. Por telefone, Hailton pedira à mãe para contar caso o primo fosse encontrado morto. Fabrício era a figura paterna mais próxima de Hailton, que não tinha contato com pai, desde que este se separara de dona Hanilta Flaviana da Silva. Era Fabrício quem dava incentivo ao menino para jogar futebol, era quem levava aos treinos e jogos. Num amistoso de comemoração entre pais dos jogadores, foi ele quem representou o garoto.

No sábado, dona Hanilta chamou um carro por aplicativo e viajou os 300 km em direção à São Gotardo. Ao ver dona Hanilta chegar ao alojamento, Hailton deduziu que o pior acontecera, os dois se abraçaram e choraram. A mãe quis levá-lo para o sepultamento do primo, mas ele se recusou.

– O Hailton quis ficar com a memória de como o Fabrício era. Fiquei assim… queria trazer ele, mas aí o Wandercley falou: “é melhor você deixar, aqui ele vai estar com os meninos, vai se entreter mais. Se levar, do jeito que vai estar a cidade, vai ser pior do que estar aqui. Se ele quer ficar, pode deixar. A gente vai cuidar dele direitinho”. – disse dona Hanilta.

Hailton ficou e foi fundamental para o desempenho do time na competição. Em uma das preleções, antes de o jogo, o técnico Wandercley instruiu as crianças a dar a bola no Hailton “ele é o escape”. Essa era a estratégia. Hailton era o atacante posicionado mais perto do gol adversário, recebia a bola em velocidade e partia para driblar os marcadores, quase sempre com sucesso. Como um Romário, é um pouco menor que seus colegas, mas dentro da área finalizava com frieza.

Nas oitavas de final, conduziu o time à vitória por 2 a 0, no Sparta, principal campo da prefeitura de São Gotardo. Neste jogo, sofreu dois pênaltis em jogadas individuais. Perdeu o primeiro e o segundo foi batido pelo meia Raul, que retribuiu, depois, com um belo passe entre os zagueiros. Hailton dominou com tapa na frente e bateu na saída do goleiro. Com o resultado, o Brumadinho avançou às quartas de final.

Do lado de fora, Tiago Lopes, observador do Fluminense, acompanhou o desempenho de Hailton. No canto do campo, viu o atacante sofrer um pênalti e fazer o último gol do jogo. Ao terminar a partida, conversou com técnico Wandercley e, depois, fez o convite ao menino. Quer levá-lo ao Rio ainda em fevereiro para realizar testes no Tricolor carioca. Ao receber a notícia, Hailton ligou para a mãe, que se emocionou.

– Em meio a tanta dor e tristeza com o que aconteceu com meu sobrinho, foi uma alegria muito grande o convite do Fluminense. Esse era o sonho do Hailton e o sonho do meu sobrinho Fabrício.

Na fase seguinte, o Brumadinho teve de jogar outro estádio, na Vila Olímpica de São Gotardo. Cercado por um barranco, que servia de arquibancada, o campo tinha dimensões de um Maracanã. Num espaço tão maior do que estavam acostumados, a estratégia de lançar para Hailton resolver não funcionou. Quando ele recebia a bola, os defensores tinham espaço e tempo para marcá-lo. No segundo-tempo, o Brumadinho sofreu um gol e não conseguiu se recuperar.

Acabou ali a saga na competição. Alguns choravam, enquanto outros estavam satisfeitos por terem chegado longe no torneio. Enquanto isso, os jogadores do sub-13 e do sub-16, que haviam sido eliminados no dia anterior, entraram no campo para consolar os companheiros. Rezaram um Pai Nosso, Ave Maria e, abraçados, caminharam de volta para o ônibus.

HORA DE VOLTAR

Na última quinta-feira, exatamente uma semana depois da partida para São Gotardo, os meninos acordaram cedo, tomaram café no refeitório do campeonato. Se despediram dos funcionários e tomaram o ônibus de volta para casa. Alguns ouviam música, outros dormiam. No fundo, todos estavam ansiosos para voltar para casa, para suas família e ver de perto o estado de Brumadinho.

Quando ônibus cruzou o limite entre os municípios de Mario Campos e Brumadinho, já tiveram uma ideia de que a cidade não era a mesma que deixaram, o desastre a colocou sob os olhos do país. Logo na entrada, em frente à faculdade Asa, estava montado um acampamento com dezenas de jornalistas e caminhões de emissoras de TV. De pé, debruçados nas janelas, os meninos viam com curiosidade as bandeiras pretas de luto fincadas nas portas das casas, as ruas vazias, o comércio tímido. Um monumento com o nome Brumadinho estava coberto por sacos pretos e cercado de velas e flores em homenagem aos mortos na tragédia.

Na entrada do estádio do Brumadinho, o Ernestão, pais, irmãos, primos e amigos dos meninos os esperavam ansiosos. Mal o ônibus estacionou, os jogadores se esqueceram de suas bagagens e correram para abraçar os familiares, confirmar que estavam todos bem. Enfim, estavam em Brumadinho, estavam em casa.

Por enquanto, não sabem quando vão recomeçar as aulas na escolas, as férias foram prolongadas. Ainda terão de se adaptar à nova realidade de Brumadinho, que terá de se reconstruir. Enquanto isso, vão continuar alimentando o sonho de representar a cidade por meio do futebol. Na terça-feira, voltam a treinar e um novo desafio já tem data marcada. Começa no dia 16 o campeonato Brasileirinho, entre times de Minas Gerais.

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