“A mineração ilegal de ouro, o narcotráfico, a extração ilegal de madeira e as redes de tráfico evoluíram para sistemas interconectados que controlam a terra, remodelam as economias locais e alimentam uma violência sem precedentes”, afirma o relatório.

A atuação das facções criminosas no Brasil já ultrapassa o ramo do tráfico de drogas. O poder das organizações já chega a influenciar eleições locais e mexer na economia através da lavagem de dinheiro.
Uma das diferentes formas de atuação dos grupos é o garimpo ilegal. O 100º documentário do Globoplay, “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, que explica o avanço das facções no Brasil, explica como as organizações chegaram ao garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, no Mato Grosso.
“O garimpo é uma nova forma de adquirir recursos pelas facções criminosas, e é altamente rentável, sobretudo na extração do ouro, na comercialização e, também, usando esse produto como moeda de troca”, explica o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso, Fabrício Braga.
Segundo o agente, a atuação dos grupos no local se dá por duas frentes:
- Em conjunto com as lideranças clandestinas que já estavam no local; e
- Tomando a frente e controlando o garimpo
Facções expandem atuação e chegam até a garimpo ilegal em terra indígena no meio da Amazônia — Foto: Reprodução/Globoplay
A terra indígena Sararé
Sararé abriga cerca de 201 indígenas do povo Nambikwara, distribuídos em sete aldeias, e se estende por municípios de Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade. Do total de 67 mil hectares do território, aproximadamente 4,2 mil hectares já foram impactados pelo garimpo ilegal, segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), órgão vinculado ao Ministério da Defesa.
A Sararé se tornou o território com o maior número de alertas de garimpo ilegal no Brasil, com 1.814 registros, segundo monitoramento do Ibama, segundo dados divulgados pela Operação Amazônia Nativa (Opan). O boletim destaca impactos ambientais significativos, como a contaminação de corpos d’água, entre eles o córrego Água Suja e o rio Sararé, com rejeitos de mineração, mercúrio e cianeto. O documento aponta ainda a degradação dos cursos d’água, incluindo a alteração e remoção do leito original de trechos do córrego.
Outros casos analisados no relatório está o do povo indígena Munduruku, no Brasil, cujo território se tornou um importante polo de mineração ilegal de ouro na última década, com atuação de redes criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Um segundo caso no Brasil, na fronteira com o Peru, expõe a situação dos povos indígenas do território transfronteiriço Yuruá-Juruá-Alto Tamaya, que enfrentam ameaças crescentes, como a expansão das economias ilícitas, incluindo o narcotráfico, o cultivo de coca e a extração ilegal de madeira.
O território dos povos indígenas de Putumayo, na Colômbia, na fronteira com o Equador e o Peru, é outro caso apresentado. Trata-se de um importante centro de economias ilícitas, particularmente para a produção e o tráfico de cocaína, com atuação de grupos armados como os Comandos de Fronteira (CDF), a Frente Carolina Ramírez e a Frente Raúl Reyes.
Para o Equador, foi escolhido o caso Nacionalidade Kichwa de Napo, uma área com mineração ilegal de ouro e cujos rios servem como corredores logísticos para operações de mineração, tráfico de drogas, exploração madeireira e outras atividades ilícitas, com a presença de grupos criminosos como Los Lobos e Los Choneros.


