
O Amazonas teve três projetos de pesquisas com foco na saúde das populações de Manacapuru, Itacoatiara e Novo Airão selecionados para um programa de bolsas. Os estudos, que serão desenvolvidos por docentes e estudantes da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Manacapuru e Itacoatiara, vão abordar temas como qualidade da água, o impacto da estiagem na saúde de populações vulneráveis e os casos de doença renal crônica em áreas quilombolas.
Os projetos do Amazonas foram contemplados pelo programa Afycionados por Ciência 2026, que ao todo selecionou 40 iniciativas de todo o país. Serão dez meses de estudos, em que os orientadores e alunos terão a oportunidade de desenvolver pesquisas alinhadas às linhas institucionais, com bolsa de incentivo mensal durante todo o período.
Na unidade de Itacoatiara, a professora Thaiana Bezerra Duarte vai orientar a aluna Patricia Lohanna Aguiar de Medeiros Cursino, do 6º período de Medicina, na pesquisa “Índice Municipal de Vulnerabilidade Sanitária à Estiagem em municípios com arranjos assistenciais fluviais/ribeirinhos do Amazonas: estudo ecológico transversal, 2024”. O estudo busca compreender como os períodos de seca extrema afetam a saúde das populações que dependem de estruturas fluviais e ribeirinhas para acesso aos serviços de saúde.
Segundo Thaiana, o objetivo da pesquisa é desenvolver o Índice Municipal de Vulnerabilidade Sanitária à Estiagem (IVSE), uma ferramenta capaz de identificar os municípios mais vulneráveis considerando fatores como exposição às condições hidroclimáticas, fragilidades territoriais, impactos sanitários e capacidade de resposta dos serviços de saúde. A expectativa é que o índice contribua para o planejamento de ações antes dos períodos de estiagem, auxiliando na priorização de territórios e na organização da Atenção Primária à Saúde no Amazonas.
Ela explicou que o projeto nasceu da observação dos impactos da estiagem severa no Amazonas, especialmente sobre a rede hidrográfica que sustenta o deslocamento de pessoas, o transporte de insumos e a atuação das equipes de saúde. Nos períodos de seca extrema, essas condições se tornam mais desafiadoras, afetando o atendimento às populações ribeirinhas.
“As secas de 2023 e 2024 evidenciaram a magnitude desse problema, com ampla repercussão territorial nos municípios amazonenses, comprometendo o acesso aos serviços, o abastecimento hídrico, as condições de saneamento e a prevenção de agravos sensíveis às condições ambientais. Apesar disso, ainda são escassos instrumentos capazes de representar, em escala municipal, a interação entre exposição hidroclimática, fragilidade territorial, susceptibilidade sanitária e capacidade institucional em municípios com arranjos assistenciais fluviais e ribeirinhos”, disse a pesquisadora.
Qualidade da água
O projeto de pesquisa da professora Nadielle Castro Pereira, da Afya Manacapuru, vai investigar a qualidade da água consumida por moradores de comunidades rurais do município, abastecidas por poços artesianos particulares.
A pesquisa será desenvolvida pela aluna Angela Lúcia Falcão de Oliveira e tem como título “Desenvolvimento e validação de biossensor portátil para detecção de parâmetros de contaminação em águas de poços em comunidades ribeirinhas de difícil acesso no município de Manacapuru”.
O projeto nasceu após Nadielle ter desenvolvido, anos atrás, uma pesquisa sobre a análise da água de poços da comunidade do Calado, em Manacapuru, e verificar focos de contaminação, trazendo riscos diretos à saúde dos consumidores locais, como casos recorrentes de diarreias. “Na época, detectamos na análise da água a presença de coliformes fecais, totais, alteração de cloro. Esses poços, que são construídos por conta própria pelos moradores, não recebem tratamento”, disse a pesquisadora.
Nadielle acrescenta que, diante do resultado de sua pesquisa anterior, verificou que esses moradores, por estarem em comunidades distantes e de difícil acesso, acabam ficando à mercê de muitas doenças e falta de controle da qualidade da água consumida desses poços artesianos, surgindo daí a ideia de desenvolver um biosensor em tempo real, que será o objeto da pesquisa selecionada no programa “Afycionados por Ciência”.
“Esse biosensor que vamos construir vai ficar lá, dentro do poço e, em tempo real vai enviar para o celular o PH, o cloro e o nível de contaminação. Vamos ficar acompanhando e comparando com a análise do Vigiágua. Se a água apresentar alteração, o próprio morador poderá entrar em contato com o Vigiágia para que eles possam ir lá fazer o tratamento da água. Assim, vamos conseguir diminuir os casos de diarréia e infecções parasitárias que têm em Manacapuru e que são altíssimos”, disse a pesquisadora.
Como o projeto está em fase inicial, a comunidade a ser estudada ainda será escolhida. O critério, adiantou, será aquela que tiver o maior índice de casos de diarréia, conforme dados da Vigilância Epidemiológica.
Doenças crônicas
O terceiro projeto de pesquisa selecionado no programa é o da Afya de Manacapuru, que vai avaliar a saúde renal de remanescentes quilombolas que vivem em comunidades de Novo Airão, distante 104 km do município onde a instituição fica localizada. Sob o título “Barreiras de acesso ao manejo de condições crônicas e risco de nefropatia em população quilombola: uma análise multimétodo sobre equidade e saúde, a pesquisa será orientada pela professora Joana Maria Borges de Freitas e realizada pela aluna Geysa Claudio de Souza, do 5º período de medicina.
A pesquisa vai investigar as dificuldades que esses quilombolas enfrentam para tratar doenças crônicas, como diabetes e pressão alta e identificar os obstáculos no caminho até o atendimento de saúde e calcular o risco que elas correm de desenvolver problemas graves e silenciosos nos rins, como Doença Renal Crônica.
“A expectativa é que as descobertas ajudem a criar ações práticas de prevenção, melhorem o atendimento oferecido pelo SUS e facilitem o acesso a exames importantes para quem mais precisa”, explicou a professora Joana Borges. Ela acrescentou que a pesquisa será uma “oportunidade valiosa” de os estudantes de medicina envolvidos no projeto, aprenderem na prática.
“Eles ganham experiência real ao analisar dados médicos, conversar com os moradores e entender como a realidade social e o racismo institucional afetam diretamente a saúde das pessoas. Esse contato direto ajuda a preparar futuros médicos mais humanos, atentos e preparados para assistir a população com base na equidade e responsabilidade no cuidado em saúde às populações vulnerabilizadas da região amazônica”, observou.


