
Quarenta e um trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão durante três fiscalizações realizadas em obras da construção civil e em um canil de Manaus, entre 6 e 19 de agosto de 2026. Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (SIT/MTE), foram encontradas jornadas exaustivas, condições degradantes, falta de registro e situações de risco à saúde e à segurança.
Em uma das obras, 16 trabalhadores estavam em um canteiro com o portão trancado e trabalhavam a mais de 10 metros de altura sem proteção contra quedas. Em outra, 24 trabalhadores cumpriam jornadas que ultrapassavam 24 horas e acumulavam até 150 horas extras em um único mês.
A Operação Resgate VI é uma força-tarefa nacional realizada pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com participação do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF).
Trabalhadores cumpriam jornadas de mais de 24 horas
A fiscalização mais recente começou em 19 de agosto, após uma denúncia feita pelos próprios trabalhadores. Vinte e quatro pedreiros foram encontrados em condições que, segundo a Inspeção do Trabalho, configuravam jornada exaustiva.
Eles haviam sido recrutados em diferentes estados, principalmente da região Nordeste, e levados para Manaus para trabalhar na construção de um galpão. Entre os locais de origem estavam cidades do Piauí, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, São Paulo e Rio Grande do Sul.
A fiscalização constatou que alguns trabalhadores permaneciam mais de 24 horas seguidas em atividades de concretagem. Houve relatos de até 150 horas extras em um único mês.
O intervalo entre as jornadas também não era respeitado. Durante o expediente, os trabalhadores relataram que tinham pausas de cerca de 20 minutos para alimentação.
Segundo a fiscalização, a empresa também aplicava suspensões com desconto nos salários como forma de punição. Além disso, houve resistência em pagar o retorno dos trabalhadores aos municípios de origem.
Obra foi embargada por risco aos trabalhadores
Em outra fiscalização, iniciada em 6 de agosto, 16 trabalhadores foram resgatados de uma obra de montagem de estruturas metálicas e cobertura de um galpão. Nenhum deles tinha registro formal.
A fiscalização constatou que o portão do canteiro permanecia trancado e apenas o responsável pela obra tinha a chave, impedindo a saída livre dos trabalhadores.
No local, eles trabalhavam a mais de 10 metros de altura sem sistemas de proteção contra quedas e utilizavam andaimes irregulares. Também foram encontradas instalações elétricas improvisadas, com fios expostos e partes energizadas acessíveis.
O único vaso sanitário ficava a céu aberto, sem paredes, cobertura, porta ou instalação hidráulica em condições de uso. Entre os trabalhadores havia um adolescente de 17 anos, que foi afastado da atividade.
A obra foi embargada em 6 de agosto por apresentar risco grave e iminente à integridade física dos trabalhadores. Mesmo após o embargo, a fiscalização encontrou atividades no local nos dias 7 e 11 de agosto, com apoio da Polícia Federal.
O Ministério Público do Trabalho foi acionado e adotou medidas judiciais para garantir o cumprimento da determinação.
Trabalhadora de canil morava no local e cumpria jornada de até 18 horas
Em uma terceira fiscalização, realizada em um canil, uma trabalhadora foi resgatada após ser encontrada sem registro e morando no próprio local de trabalho.
Ela recebia cerca de R$ 800 por mês e começava a trabalhar por volta das 5h30, seguindo até a noite. A jornada chegava a quase 18 horas por dia, sem descanso semanal regular.
Entre as atividades estavam limpeza, alimentação, higienização, administração de medicamentos e cuidados com os animais.
A trabalhadora também ficava exposta a fezes, urina e outros materiais potencialmente contaminados. Segundo a fiscalização, não havia comprovação de fornecimento adequado de equipamentos de proteção.
O espaço usado como alojamento apresentava problemas de higiene e condições inadequadas de habitabilidade, além de favorecer a presença de insetos e roedores.
Após o resgate, a trabalhadora foi retirada do local e encaminhada para um espaço seguro.


