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Verão amazônico será mais quente com incidência El Niño forte

Seca severa, temperaturas acima da média e sensação térmica extrema de até 49°C em Manaus são alguns dos efeitos do verão amazônico em 2026 previstos por profissionais de meteorologia. A projeção foi feita com base em dados do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Esse cenário considera a incidência de um El Niño de intensidade forte a muito forte, que deve aumentar o calor na capital amazonense. Segundo o analista em Ciência e Tecnologia do Censipam, Nikolai da Silva Espinoza, o período de menor registro de chuva em Manaus ocorre tradicionalmente entre julho e o início de outubro. Nikolai analisou modelos climáticos em que o El Niño aparece estabelecido e deve ditar o ritmo do clima na Amazônia.

“Os modelos meteorológicos de previsão climática confirmaram que o fenômeno El Niño já estabelecido deve persistir para os próximos meses. Segundo as projeções oficiais, existe a probabilidade que este El Niño alcance a categoria forte ou muito forte, e isso impactará diretamente as condições de tempo na região amazônica, principalmente com estiagem e altas temperaturas”, afirmou.

“A previsão indica que os meses de agosto, setembro e outubro, as temperaturas ficarão acima da média em Manaus, consequentemente, com elevada sensação térmica (índice de calor) na cidade que pode agravar o desconforto térmico na população”, acrescentou o especialista.

Anomalias climáticas

A meteorologista e professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Juliane Querino, também cita a probabilidade de ambiente com calor elevado. “Estamos na estação do inverno, que coincide com o período seco da região e por isso no senso comum a época é dita ‘verão amazônico’. Esse período se estende até setembro. A previsão climática para os próximos 3 meses é que tenhamos temperaturas mais altas e chuvas abaixo da média”.

Para a meteorologista e consultora climática Andrea Ramos, o monitoramento do Oceano Pacífico Equatorial confirma que o cenário será de calor persistente.

“As anomalias de temperatura da superfície do mar já indicam aquecimento consistente, com valores em torno de +0,7°C na região Niño 3.4, e a probabilidade de manutenção do fenômeno ao longo do segundo semestre é praticamente total”, diz.

“Esse cenário favorece, historicamente, a redução das chuvas e o aumento das temperaturas na Amazônia, o que implica um início de estação seca mais intenso, com calor persistente e maior frequência de extremos de temperatura. Isso ocorre porque, além da temperatura do ar mais alta, a atmosfera amazônica ainda mantém níveis relativamente elevados de umidade, sobretudo no início da estação seca”, explica.

Calor real x sensação térmica

De acordo com os meteorologistas, a população vai sentir um calor muito maior do que aquele que aparece nos termômetros oficiais. Conforme detalha o meteorologista e consultor climático Francisco de Assis, a umidade funciona como um fator agravante para a saúde.

“A sensação térmica ou índice de calor que a população sente é medida com a temperatura do ar e a umidade relativa do ar. Mais temperatura e maior umidade do ar favorecem maior índice de calor. Porém, em geral, quando aumenta a temperatura diminui a umidade do ar. Exemplo: temperatura de 39 graus e umidade de 45%, o índice de calor vai a 49 graus. Quando o índice de calor passa de 54 graus, o ser humano, se não tiver bem de saúde, começa a ter problema”, enfatiza.

Juliane Querino complementa e explica a dinâmica dos fatores ambientais na sensação de calor. “A sensação térmica é a temperatura que nosso corpo percebe, e é influenciada por fatores ambientais como temperatura do ar, umidade do ar, velocidade do ar e radiação solar. Com a previsão de aumento de temperatura, a tendência é que a sensação térmica também aumente, ficando acima da média histórica”.

Segundo a explicação técnica de Nikolai da Silva Espinoza, a diferença entre os dois indicadores está na forma como o corpo absorve o calor do ambiente. “Em termos meteorológicos, a temperatura é a quantidade de calor que existe no ar — uma medida direta pelo termômetro meteorológico. Já a sensação térmica e o índice de calor são medidas aparentes: a sensação térmica é mais usada para o inverno, considerando a combinação entre temperatura do ar e velocidade do vento, enquanto o índice de calor é usado para o verão, com base na temperatura e na umidade do ar”.

“Dentro da região amazônica, devido aos altos valores de temperatura e umidade e aos ventos mais calmos, a temperatura aparente costuma ser maior que a temperatura real do ar”, complementa.

Horários críticos e regiões mais quentes

Para Andrea Ramos, o formato urbano de Manaus cria armadilhas térmicas. Segundo a meteorologista, o concreto e o asfalto absorvem a radiação e prolongam o desconforto mesmo depois que o sol se põe.

“Dentro da cidade, estudos indicam que a zona centro-sul de Manaus concentra as áreas mais quentes, devido à maior densidade de construções e menor cobertura vegetal — o fenômeno conhecido como ilha de calor urbana, bem documentado na capital amazonense. O período mais crítico ocorre entre o fim da manhã e o meio da tarde, aproximadamente das 11h às 16h, quando a radiação solar é mais intensa. À noite, especialmente entre 18h e 22h, a retenção de calor pelas superfícies urbanas mantém as temperaturas elevadas, prolongando a sensação de abafamento”, explica.

Conforme avalia Francisco de Assis, a frota de veículos piora a situação na área central da cidade. “Manaus é quente como um todo; o centro da cidade, devido aos aglomerados de veículos, torna-se mais quente”.

De acordo com Nikolai da Silva Espinoza, a falta de áreas verdes explica por que a zona sul e o Centro são mais quentes. “A região sul e o centro são as áreas mais propensas a ter sensação térmica e índice de calor maiores, pois apresentam baixa cobertura vegetal e intensas construções verticais — fatores que, combinados, favorecem as chamadas ilhas de calor, fenômeno em que áreas urbanas registram temperaturas significativamente mais altas que as zonas rurais ao redor”.

Juliane Querino reforça que essa distribuição de calor exige atenção redobrada dos moradores nos horários de pico. “Áreas com pouca arborização e mais verticalizadas costumam ser mais quentes, porque a área construída retém mais calor do que uma área natural equivalente. Os horários de maior intensidade solar, entre 11h e 15h, são os mais desconfortáveis”.

Planejamento e mitigação

Para os especialistas, o aumento do calor nas últimas décadas é um fato estatístico comprovado. Segundo Francisco de Assis, as ondas de calor locais estão diretamente ligadas a uma crise climática global. “O aumento de calor não somente em Manaus, mas em várias regiões do globo, está associado ao aquecimento que a Terra vem passando, que provoca também o aumento na ocorrência de eventos extremos, temporais de curta duração com maior frequência e vendavais”.

Andrea Ramos diz que o aumento das temperaturas em Manaus é resultado da combinação de dois fatores: o aquecimento global e a urbanização.

“Em escala global, o aquecimento do planeta eleva a temperatura média e intensifica eventos extremos, como ondas de calor. Em escala local, a substituição de vegetação por superfícies impermeáveis, a verticalização e a falta de arborização contribuem para o acúmulo de calor e a redução da ventilação. Estudos sobre Manaus mostram que essa urbanização tem ampliado o efeito de ilha de calor, e análises mais recentes indicam que mais de 85% da população está exposta a condições térmicas superiores às das áreas vegetadas próximas”, afirma.

A professora Juliane Querino alerta para a necessidade imediata de novas posturas estruturais e individuais diante desta realidade. “Hoje é necessário falarmos de adaptação climática, pois a população precisa estar preparada para esses eventos extremos. As cidades precisam ser mais resilientes. A população precisa se manter hidratada, comer alimentos leves e buscar áreas sombreadas e ventiladas. Já as cidades podem buscar implantar áreas mais arborizadas e instalar fontes de água, por exemplo”.

Para Nikolai da Silva Espinoza, o planejamento urbano precisa mudar urgentemente, pois o calor extremo afeta diretamente os sistemas vitais do corpo humano.

“As altas taxas de emissões de gases de efeito estufa e o crescente desmatamento florestal intensificam ainda mais esse aumento, impactando a saúde da população: ambientes com sensação térmica alta podem causar desidratação e insolação, além de interferir no sistema circulatório, cardiovascular e respiratório. Por isso, durante dias muito quentes é aconselhável procurar abrigos refrigerados, manter a hidratação e evitar exposição ao sol. Entre as medidas de mitigação estão o planejamento urbano com projetos de arborização, pavimentos sustentáveis e telhados de alto albedo (telhados verdes) em casas e edifícios, explica.

De acordo com Andrea Ramos, as soluções passam por medidas práticas de infraestrutura e novas políticas públicas na capital. “A ampliação da arborização urbana é uma das estratégias mais eficientes, pois a vegetação fornece sombra e promove resfriamento por evapotranspiração.

Também são importantes o uso de materiais mais refletivos em telhados e pavimentos, o planejamento urbano que favoreça a circulação de ventos e a preservação de áreas verdes. Além disso, políticas públicas podem incluir sistemas de alerta para calor extremo, criação de espaços climatizados para a população e adaptação de rotinas de trabalho durante períodos críticos”, diz a especialista.

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