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Microplásticos nas águas do Amazonas ameaçam a biodiversidade e a saúde humana

Nas águas do Amazonas, o pirarucu (Arapaima gigas) sobrevive há mais de 100 milhões de anos graças à sua capacidade de respirar o ar atmosférico. Hoje, no entanto, essa mesma adaptação evolutiva tornou-se uma porta de entrada para uma nova e invisível ameaça: a contaminação por microplásticos. Reportagem da Agência Pública, divulga nesta sexta-feira (7), revela como esses poluentes estão afetando diversas espécies da fauna aquática regional e acendendo o alerta para a segurança alimentar na Amazônia.

O biólogo Adalberto Val, coordenador do INCT-Adapta, explica que a respiração aérea expõe o pirarucu a partículas flutuantes que podem causar danos mecânicos, como a obstrução da glote, e alterar o funcionamento de células sensoras de oxigênio e gás carbônico. Além disso, os microplásticos competem por íons essenciais — como sódio, potássio e cálcio — e desencadeiam processos inflamatórios severos, forçando o organismo do peixe a gastar energia que seria destinada ao seu crescimento e sobrevivência.

A degradação ambiental é ainda mais severa nos igarapés urbanos, onde o descarte inadequado de lixo e o esgoto sem tratamento elevam as concentrações de poluentes a níveis alarmantes. Em Manaus, levantamentos registraram até 74.550 microplásticos por metro cúbico em igarapés da cidade. No Lago Puraquequara, metade dos jaraquis analisados — o peixe mais consumido no estado — apresentava fragmentos plásticos no sistema digestivo.

O impacto se estende por diferentes habitats e hábitos alimentares:

  • Espécies de fundo: O tamoatá (Hoplosternum littorale), que se alimenta de detritos no sedimento, sofre com estresse fisiológico e perda de peso mesmo em baixas exposições ao plástico.
  • Pequenos peixes e predadores: Pesquisas nos rios Guamá e Acará-Capim, no Pará, detectaram partículas nas brânquias e no trato digestivo de quase 100% dos indivíduos coletados, indicando que a poluição já se espalhou por toda a cadeia alimentar.

Como a população do Amazonas consome cerca de 14 quilos de peixe por pessoa ao ano — valor muito superior à média nacional —, os cientistas alertam que o problema ultrapassa a conservação ambiental e se consolida como uma questão crítica de saúde pública para toda a região.

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