Com apenas 19,8% de chances de ascensão econômica, estado fica à frente apenas do Acre e do Amapá; desigualdade atinge desproporcionalmente mulheres e negros.

O Amazonas figura entre os estados brasileiros com os menores índices de mobilidade social do país, evidenciando um cenário em que a renda da família de origem determina fortemente o futuro econômico das novas gerações. De acordo com dados do Atlas da Mobilidade Social Brasil, divulgado nesta sexta-feira (31), apenas 19,8% dos filhos nascidos na metade mais pobre da população amazonense conseguem migrar para a metade mais rica na vida adulta.
Na prática, 80,2% desses indivíduos continuam retidos nas faixas de menor rendimento — uma taxa de estagnação significativamente superior à média nacional, que é de 66,6%. No ranking brasileiro que mede as oportunidades de ascensão econômica entre gerações, o Amazonas ocupa a antepenúltima posição, superando apenas o Acre e o Amapá.
O levantamento é fruto de uma parceria entre o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e o Prospera Lab.
A probabilidade de um jovem vulnerável no Amazonas alcançar o topo da distribuição de renda é ainda mais reduzida:
- Quarto mais rico (Top 25%): Apenas 6% dos amazonenses vindos de famílias pobres conseguem integrar essa faixa.
- Décimo mais rico (Top 10%): A chance despenca para irrisórios 1,1%.
Aprofundamento das desigualdades: Gênero e Raça
O estudo destaca que a estagnação econômica afeta a população de forma desigual quando analisados recortes demográficos. A sobreposição de barreiras de gênero e cor/raça cria entraves ainda maiores para a ascensão social no estado:
Permanência na metade mais pobre no Amazonas (por perfil):
Mulheres não brancas ─────────────────────────────── 89,5%
Mulheres (Geral) ─────────────────────────────── 89,0%
Homens (Geral) ──────────────────────── 70,8%
Em nível nacional, o padrão se repete: 88,1% das mulheres de baixa renda permanecem na metade mais pobre, em comparação com 68,7% dos homens.
A herança da escolaridade parental
Outro fator determinante apontado pelo Atlas é o nível de instrução dos pais. O estudo confirma uma correlação direta entre o baixo grau de escolaridade da família e a dificuldade de ascensão dos filhos:
80,7% dos amazonenses retidos na faixa de menor renda são filhos de pais com ensino fundamental incompleto ou sem nenhuma instrução. Entre aqueles cujos pais concluíram o ensino fundamental ou iniciaram o ensino médio, o percentual cai para 75,9%.
Como o levantamento foi realizado
Para mapear a transmissão intergeracional de renda, os pesquisadores utilizaram uma metodologia longitudinal:
- Primeira fase (2006–2010): Identificaram-se famílias situadas na metade de menor renda familiar per capita, selecionando aquelas que possuíam filhos crianças ou adolescentes no período.
- Segunda fase (2015–2019): Acompanhou-se a renda desses mesmos filhos, já na vida adulta, para comparar a evolução econômica em relação à família de origem.
O estudo avalia cinco indicadores centrais de ascensão e permanência econômica. Quanto maior for a dependência entre a renda dos pais e a dos filhos, menor é a mobilidade social e maior a rigidez da estrutura de desigualdade da região.


