
O Campeonato Mundial de Futebol já começou e durante esse período, aumenta a exposição às plataformas de apostas esportivas e especialistas reforçam o alerta para os impactos do vício em jogos na saúde mental. O tema ganha relevância diante dos dados do Ministério da Saúde, que apontam crescimento, no SUS, de quase 20 vezes nos atendimentos relacionados a jogos e apostas entre 2018 e 2025.
Segundo a psiquiatra Alessandra Pereira, docente da pós-graduação da Afya Educação Médica, a alta dos registros demonstra que a busca por tratamento para o transtorno do jogo é uma realidade cada vez mais frequente no Brasil.
“O transtorno do jogo, popularmente conhecido como vício em apostas, é reconhecido pela psiquiatria e está incluído nos principais manuais diagnósticos internacionais. Ele tem muitas características parecidas com as dependências químicas, como a de álcool e outras drogas. Em ambos os casos, ocorre ativação dos circuitos cerebrais de recompensa, especialmente aqueles relacionados à dopamina. A pessoa sente prazer ao apostar e, com o tempo, pode perder o controle sobre o comportamento, mesmo diante de prejuízos evidentes”, explica.
A especialista em saúde mental destaca que um dos principais sinais de alerta é a perda de controle, quando o comportamento deixa de ser uma atividade recreativa e passa a ocupar espaço cada vez maior na rotina da pessoa.
“A pessoa passa a gastar mais tempo ou apostar mais dinheiro do que havia planejado e não consegue parar. Também há preocupação constante com apostas, necessidade de aumentar os valores para obter a mesma sensação de emoção, tentativas frustradas de interromper a prática, mentiras para familiares sobre perdas financeiras e uso das apostas como forma de aliviar ansiedade, tristeza ou estresse”, afirma a professora da Afya.
De acordo com a psiquiatra, quando a atividade começa a gerar prejuízos e, ainda assim, a pessoa continua apostando, o quadro merece atenção especializada. Entre as consequências mais frequentes estão ansiedade, estresse emocional, depressão, insônia e, em alguns casos, o abuso de álcool e outras substâncias.
“As dificuldades financeiras geram um nível intenso de ansiedade e estresse emocional. A pessoa acumula dívidas, perde patrimônio ou compromete a renda da família, surgindo sentimentos de culpa, vergonha, desesperança e medo do futuro. Em casos mais graves, o indivíduo pode apresentar isolamento social, perda da autoestima e pensamentos de que não tem valor”, ressalta.
Além dos impactos emocionais, alerta Alessandra Pereira, o vício em apostas também afeta os relacionamentos e a vida profissional. Conflitos familiares, perda de confiança, desgaste emocional e dificuldades no ambiente de trabalho estão entre as consequências mais comuns.
“Muitos casamentos entram em crise devido ao endividamento e à quebra de acordos financeiros. No trabalho, a pessoa pode apresentar queda de produtividade, dificuldade de concentração, absenteísmo e problemas relacionados ao desempenho”, destaca.
Diante da popularização das apostas esportivas, especialmente em períodos de grandes competições, a professora da Afya reforça a importância de estabelecer limites e encarar as apostas apenas como entretenimento.
“Aposta não é investimento. Ela deve ser vista como uma brincadeira, uma diversão, e não como estratégia para ganhar dinheiro ou resolver problemas financeiros. É muito importante observar os próprios comportamentos, porque isso está muito normalizado na sociedade. E ver também o comportamento das pessoas da família ou amigos e em caso de vício, procure atendimento psicológico e tratamento”, orienta Alessandra Pereira.
Para enfrentar o problema, o Ministério da Saúde iniciou, em março de 2026, um serviço gratuito de teleatendimento em saúde mental pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. A iniciativa pode ser acessada pelo aplicativo Meu SUS Digital. O atendimento é voltado para pessoas com 18 anos ou mais, além de familiares e rede de apoio.
Atendimento – Em Manaus, a Afya Educação Médica mantém uma iniciativa voltada ao apoio para a comunidade, oferecendo atendimento gratuito em diversas especialidades médicas, incluindo Psiquiatria. O serviço faz parte das atividades práticas dos cursos de pós-graduação da instituição e amplia o acesso da população a cuidados especializados.
Os atendimentos são realizados mediante agendamento, via whatsapp (92) 99379-9297. “Com essa iniciativa, os médicos em formação nas suas especialidades conseguem atuar em casos reais, enquanto a comunidade é beneficiada com a oferta de atendimento especializado”, reforça a diretora da unidade, Suelen Falcão.


