
Após enfrentar um período prolongado sob densas camadas de fumaça decorrentes de incêndios florestais na região, a cidade de Manaus registrou uma melhora perceptível em sua qualidade do ar nesta quinta-feira (15). Com a expressiva redução na concentração de poluentes atmosféricos, a capital do Amazonas deixou o topo do ranking nacional das cidades mais poluídas do país, posição que ocupava de forma consecutiva havia cerca de uma semana.
De acordo com os dados fornecidos pela plataforma internacional de monitoramento IQAir, o índice de qualidade do ar (IQA) na capital amazonense recuou para a faixa moderada, marcando 85 pontos com partículas finas classificadas sob o mesmo patamar. Esse avanço permitiu que Manaus caísse para a segunda colocação no ranking de poluição em tempo real no Brasil, sendo superada por Porto Velho (RO), que assumiu a liderança nacional ao registrar um índice de 101.
O papel das chuvas e os fatores climáticos
A trégua na poluição atmosférica está associada primariamente à ocorrência de precipitações recentes em pontos estratégicos da capital. As chuvas exercem um papel fundamental de “lavagem” da atmosfera, auxiliando na remoção mecânica de partículas suspensas e reduzindo transitoriamente a carga de poluentes inaláveis.
Apesar do alívio momentâneo, especialistas em meteorologia e órgãos de saúde alertam que o cenário continua volátil. A estabilidade da qualidade do ar permanece atrelada à persistência de chuvas futuras, ao comportamento dos ventos e, sobretudo, ao combate e à evolução dos focos de incêndio na região.
A fumaça que recurrentemente encobre os centros urbanos do Amazonas é impulsionada por uma combinação crítica de fatores: períodos prolongados de estiagem, temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar e vegetação ressecada. Esse panorama favorece a propagação rápida do fogo, cujos subprodutos gasosos e particulados são transportados por correntes de vento até as áreas densamente povoadas. Durante os picos de concentração, os moradores ficam expostos a riscos que vão desde irritação ocular e nas vias aéreas até crises de tosse, falta de ar e o agravamento de patologias respiratórias e cardiovasculares preexistentes.
Recomendações de saúde e histórico do problema
Mesmo com a queda nos índices de poluição, as autoridades sanitárias mantêm as recomendações de cautela. A orientação principal é acompanhar diariamente os boletins de qualidade do ar e evitar a exposição prolongada em áreas abertas sempre que possível. Cuidados redobrados devem ser adotados por grupos de risco, englobando crianças, idosos e pessoas diagnosticadas com doenças crônicas respiratórias ou cardíacas.
O fenômeno da fumaça em Manaus está longe de ser isolado, integrando um ciclo recorrente que afeta o estado pelo menos desde 2015. Ao longo da última década, episódios críticos de poluição e visibilidade reduzida têm sido documentados com frequência variável, diretamente influenciados pela intensidade das temporadas de seca e pela incidência de queimadas:
- 2015: O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 13.419 focos de queimadas no Amazonas, gerando dias consecutivos de cheiro de fumaça e névoa na Região Metropolitana.
- 2020 a 2023: O número de incêndios apresentou patamares elevados, com 16.729 focos em 2020, subindo para 21.217 em 2022 e registrando 19.601 em 2023. O ano de 2023 também foi marcado por uma seca extrema que comprometeu severamente os rios, a navegação e o abastecimento no interior, além de fazer o Rio Negro atingir seu menor nível em mais de 120 anos de medições históricas.
- 2024 a 2026: O ano de 2024 consolidou o recorde do período analisado, com impressionantes 25.499 focos de queimadas registrados no estado. Em contrapartida, 2025 registrou uma retração expressiva para 4.545 focos, impulsionado por um regime de chuvas acima da média histórica. No entanto, o cenário voltou a preocupar em 2026: até o mês de outubro, o estado contabilizou 7.865 focos de calor, impulsionado por índices pluviométricos significativamente abaixo da média desde o mês de junho, conforme apontado por análises meteorológicas.
A saída de Manaus do topo do ranking nacional reflete uma melhora importante nas condições atmosféricas imediatas, mas evidencia a fragilidade do ecossistema urbano frente aos ciclos sazonais de seca e queimadas na Amazônia.


