
Os murais da quinta edição do projeto Parintins Galeria Cidade Aberta, promovido pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, têm transformado as ruas de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus) em um grande espaço de memória e valorização cultural. Cada artista imprime, nas cores e traços, experiências pessoais, referências familiares e elementos que ajudam a preservar a identidade cultural amazônica, fortalecendo a arte urbana no município.
Inspiradas nas raízes amazônicas, as obras levam para os muros histórias que retratam, entre outros temas, a tradição da juta na região, a vida e os costumes dos ribeirinhos, a força das mulheres amazônicas e os saberes indígenas e arqueológicos. Além disso, os murais se tornam atrações a mais para que moradores e visitantes reconheçam as raízes que ajudaram a construir a identidade parintinense.
A obra “Juteiro da Amazônia”, assinada por Mag Lenilson, resgata um dos ciclos econômicos mais importantes da história de Parintins. Entre as primeiras décadas do século 20 e os anos 1970, a cultura da juta movimentou a economia local, gerou empregos e marcou profundamente a vida de milhares de famílias da região.
O artista buscou transformar em arte uma memória presente na vida de muitas famílias parintinenses, inclusive na sua própria. A obra resgata um dos períodos mais importantes da economia local e reforça a importância de preservar essas histórias para as novas gerações.
No mural “Entre Águas e Raízes”, os artistas Inácio Paiva e João Ferreira retratam o cotidiano das famílias ribeirinhas e a relação profunda que elas mantêm com os rios, a floresta e os modos tradicionais de subsistência. A obra retrata personagens e cenários comuns nas comunidades amazônicas, valorizando tradições e modos de vida que seguem presentes no cotidiano das famílias às margens dos rios.
O artista Inácio Paiva conta como levou para os muros experiências que fazem parte da sua vivência como ribeirinho. “Venho de uma comunidade ribeirinha próxima à cidade de Parintins e esse mural conta muito a vivência que tenho lá, onde é muito comum ter pescadores, mulheres torrando farinha e quisemos esse ano apresentar esse trabalho primário onde tudo acontece. É algo que eu vivo desde criança, como ribeirinho e como artista”, destacou.
A força da mulher amazônica
O mural “Matriarcas da Floresta: cultura viva da Amazônia”, do artista Pito Silva, centraliza a força feminina, homenageando mulheres que sustentam tradições, preservam saberes e mantêm viva a relação com a floresta e os modos de vida amazônicos.
Inspirado nas próprias vivências familiares, o artista transformou em arte cenas presentes no cotidiano de sua casa, trazendo elementos tradicionais e os preparos típicos da culinária amazonense. O mural reforça como a arte urbana também funciona como ferramenta de valorização social, ao dar visibilidade a personagens fundamentais para a construção da identidade amazônica.
No mural “Yube e o ventre da sabedoria: a trama da mulher ancestral”, as artistas Day Cruz e Kamy Wará mergulham em histórias do povo Huni Kuin para refletir sobre o papel das mulheres na preservação dos conhecimentos tradicionais. A figura da serpente Yube aparece como símbolo de conexão entre o mundo físico e espiritual, enquanto as mulheres surgem como guardiãs dos saberes ancestrais.
“Esse projeto nasce do desejo de representarmos o feminino e homenagear as nossas matriarcas. Então, a partir desse conto, pensamos o nosso mural com duas idosas nas extremidades, que costuram esse muro através da serpente e chegam até as meninas contemporâneas, passando todos os saberes passados de geração em geração e protegendo os conhecimentos tradicionais”, explicou Day.
Preservação da memória ancestral
Com o mural “Artefatos”, o artista Andrew Viana leva para os espaços abertos referências arqueológicas encontradas na região de Parintins. Inspirada em registros do projeto “Divulgação arqueológica em tempos de pandemia, coleções de Parintins e suas histórias”, a obra busca aproximar a população da história dos povos originários e reforçar a importância da preservação desse patrimônio cultural.
O artista conta como transformou fragmentos e símbolos ancestrais em uma grande narrativa visual. “Este ano, estamos trazendo o mural ‘Artefatos’, que são objetos criados pelos povos originários, que trazem uma tradição antiga, ancestral e um pouco ritualística. Esses artefatos são encontrados aqui nas nossas regiões, principalmente na Serra da Valéria e até aqui na cidade, onde pequenos fragmentos são encontrados e neles há essas linhas de grafismo que contam a história de cada etnia”, declarou o artista.
Ao ocupar áreas periféricas da cidade, o mural reforça o potencial da arte urbana, democratizando o acesso à cultura, incentivando a valorização da história local e fortalecendo o sentimento de identidade. “Esse trabalho foi destinado à periferia da nossa cidade, onde podemos compartilhar um pouco desse conhecimento ancestral e o povo pode se identificar com esses objetos”, completou Andrew.


