
As queimadas que devastam os 6,7 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia ganharam um novo adversário tecnológico. Até o mês de agosto, período em que a seca se intensifica na região Norte, o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) colocará em operação o “IA-FogoBio”. O sistema de Inteligência Artificial (IA) promete prever incêndios florestais com uma a duas semanas de antecedência e um índice de acerto superior a 90%.
O projeto surge em um momento de extrema urgência. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Brasil lidera o ranking de queimadas na América do Sul. Em 2024, a Amazônia registrou o pior número de incêndios dos últimos 17 anos, gerando secas severas e densas nuvens de fumaça que afetaram diretamente a saúde pública de capitais como Manaus (AM). Somente entre junho e agosto daquele ano, o fogo consumiu 2,4 milhões de hectares, liberando 31,5 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera.
Como funciona a tecnologia
Idealizada pelo pesquisador do Ifam Diego Sales, a iniciativa utiliza modelos avançados de aprendizado de máquina, incluindo redes neurais convolucionais (CNNs), redes LSTM (longa memória de curto prazo) e o algoritmo Random Forest.
O sistema funciona por meio do cruzamento de um vasto banco de dados geográficos e climáticos, que inclui:
- Imagens de satélite em tempo real fornecidas pela Nasa e pelo Inpe;
- Mapas de solo desenvolvidos pela Embrapa;
- Características dos biomas catalogadas pelo IBGE;
- Histórico de queimadas dos últimos 20 anos na região.
“Isso permite que a IA aprenda e cruze dados de focos de calor com a vegetação, assim como o tipo de solo para estimar o perigo antecipadamente”, explica Sales. “A janela de antecipação fornece o tempo necessário para que as equipes decidam estrategicamente a quantidade de brigadistas, os equipamentos adequados e as melhores rotas para uma ação preventiva.”
Uma vez identificadas as áreas de risco, os alertas são gerados e repassados imediatamente aos órgãos ambientais operativos, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), permitindo o combate antes que o fogo saia de controle.
Foco na ação humana e proteção indígena
Os estudos preliminares do Ifam acoplados à IA revelaram um dado alarmante: a maioria esmagadora dos focos de incêndio tem origem humana e não natural. Diante disso, mapear e prever esses pontos torna-se uma ferramenta crucial para a fiscalização e o combate a ações criminosas ou acidentais.
O “IA-FogoBio” é dividido em três módulos (histórico, tempo real e predição) e monitora 100% dos territórios indígenas do bioma amazônico. Em parceria com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), foi criada uma ferramenta específica capaz de emitir alertas de risco com 6 horas de antecedência para áreas vulneráveis.
De acordo com Mônica Vasconcelos, analista em ciência e tecnologia do Censipam, o sistema conta com filtros específicos para terras indígenas, quilombolas e unidades de conservação, classificando-as em níveis de risco alto, médio e baixo.
Financiamento e o desafio da sustentabilidade
Financiado pela Google.org com um aporte de R$ 1,9 milhão, o projeto busca mitigar sua própria pegada ecológica. O Polo de Inovação do Ifam, onde a tecnologia está sediada, opera com painéis fotovoltaicos para a geração de energia solar.
Contudo, especialistas alertam para a necessidade de ir além. Juliano Maranhão, professor de Direito e pesquisador do Centro de IA da USP, ressalta que o impacto ambiental da tecnologia envolve outros fatores de infraestrutura.
“A sustentabilidade precisa se tornar um requisito do próprio desenvolvimento tecnológico, e não apenas uma medida para compensar impactos. A energia solar reduz emissões da operação, mas não elimina o consumo de água para resfriamento nem os impactos do hardware”, adverte Maranhão.
O cronograma oficial prevê que o sistema comece a rodar de forma prática já no início de agosto, inicialmente mapeando o estado de Roraima, com expansão subsequente para o Amazonas.


