
Um vídeo de pouco mais de dois minutos, gravado em 23 de maio de 2024, virou a peça central de uma investigação que aponta como integrantes da Polícia Civil atuaram para “enterrar” um inquérito, pelo valor de R$ 1 milhão, que mirava Wagner Nascimento de Souza, o Costurado, ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Dois dos agentes de segurança foram presos nesta quarta-feira (10).
Nas imagens, recuperadas em nuvem pela Polícia Federal (PF), o advogado Ademilson Alves de Brito aparece em videochamada com o investigador Murilo Muniz e o agente Alan Fernandes Dias, ambos lotados no Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc). O diálogo, transcrito na denúncia do Grupo que Investiga o Crime Organizado (Gaeco), mostra passo a passo como os policiais orientaram o defensor sobre o “encaminhamento” do caso, que havia se tornado incômodo para o grupo criminoso, que era investigado por tráfico de drogas.
“Eu vou conversar com o escrivão, tá para terça, quarta-feira”, afirma Murilo, em referência ao escrivão Wander Tadeu de Araujo, igualmente citado no processo como peça essencial para dar aparência formal ao encerramento da apuração.
“Tá bom, eu posso ficar tranquilo então, que esse assunto tá encerrado, matou a nota? Ninguém deve nada?”, indaga o advogado ao policial, que responde: “Acabou, parou… usa isso a seu favor”, mencionando que o juiz havia negado um pedido de busca e apreensão relacionado ao caso e que, essa negativa, deveria ser explorada para justificar o encerramento do inquérito.
As falas revelam não só a naturalidade com que o grupo discutia o direcionamento de um procedimento sigiloso, mas também a consciência de que o pagamento mencionado pelo advogado, e aceito sem objeção pelos policiais, selaria o destino da investigação.
Costurado, apontado pela PF e MPSP como operador financeiro do PCC, na rota entre Mato Grosso e São Paulo, havia sido identificado em investigação que desvendou o transporte de 345 kg de cocaína escondidos em um caminhão frigorífico.
O material reunido pelo Gaeco descreve a infiltração de interesses privados na estrutura do Denarc. As conversas mostram que Murilo e Alan tratavam o andamento do inquérito como barganha direta, enquanto Wander aparecia como o funcionário capaz de dar formalidade ao desfecho desejado.
Em um dos trechos, Ademilson pergunta se poderia “ficar tranquilo” e se a investigação “não iria dar nada” para Costurado. Ele é tranquilizado por um dos policiais.
Para o MPSP, a atuação dos três policiais civis configurou “desvirtuamento de inquérito policial” mediante pagamento ilícito.
Patrimônios incompatíveis
A apuração também escancara uma sequência de aquisições feitas pelos policiais civis pouco depois do vídeo da negociação, consideradas incompatíveis com os salários dos agentes de segurança.
Cinco dias após a gravação, Murilo comprou um apartamento no condomínio Living Ipiranga, avaliado entre R$ 890 mil e R$ 1,25 milhão no mercado. O financiamento exige parcelas de R$ 6.550,80, quase equivalentes ao salário líquido do investigador (R$ 7.245,83).
Além disso, ele é proprietário de outro imóvel em Santos, litoral paulista, e de uma motocicleta. Já sua esposa, como apontado pela Promotoria, consta com outros quatro imóveis e um Jeep Renegade registrados em seu nome.


