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Rios do Amazonas viram rota da ‘supermaconha’ no país com atuação das Farc

Apreensão de maconha ‘creepy’ de alta potência no Rio Japurá revela conexões internacionais do tráfico e o avanço da criminalidade na fronteira isolada do Amazonas.

A prisão de dois cidadãos colombianos que tentavam ingressar clandestinamente no Brasil com 17 quilos de drogas expôs a complexa teia do tráfico internacional na fronteira amazônica. O caso ocorreu no Rio Japurá, na altura do isolado povoado de Vila Bittencourt (AM). Na tentativa de despistar a fiscalização, os suspeitos desligaram o motor e as luzes da embarcação, navegando apenas a remo, mas acabaram interceptados e capturados por militares do 3° Pelotão Especial de Fronteira do Exército Brasileiro.

Com a dupla, os militares encontraram documentos de identificação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Meses após o flagrante, a Justiça brasileira utilizou os documentos como prova material para condenar os réus, confirmando o elo direto dos suspeitos com a organização.

A Nova Dinâmica do Tráfico na Fronteira

O episódio ilustra uma transformação profunda na geopolítica do crime na região. Embora as Farc tenham assinado um acordo de paz oficial e entregue as armas em 2016, suas dissidências permanecem ativas e altamente lucrativas.

Para fugir do forte policiamento na tradicional Tríplice Fronteira (que conecta Tabatinga no Brasil, Letícia na Colômbia e Santa Rosa no Peru), as organizações criminosas migraram suas rotas para os rios Japurá e Puruê. Na última década, esses cursos d’água consolidaram-se como os principais corredores de entrada da maconha creepy (ou “cripa”), uma variante da cannabis de alta potência cultivada em estufas e laboratórios clandestinos em território colombiano.

O Perigo da Maconha Creepy

O termo creepy (que, em tradução livre, significa “assustadora” ou “horripilante”) faz jus ao impacto da substância no organismo. O entorpecente destaca-se pelo alto valor de mercado e pelos graves riscos à saúde pública:

  • Superconcentração de THC: Enquanto a maconha comum apresenta uma concentração de tetrahidrocanabinol (THC) entre 0,5% e 5%, a creepy pode alcançar marcas de até 25%.
  • Danos Psíquicos: O alto teor do princípio ativo eleva drasticamente o risco de dependência química e o desencadeamento de surtos e transtornos psicóticos.
  • Impacto Cognitivo: Especialistas alertam que o consumo da substância durante a fase de desenvolvimento cerebral compromete permanentemente a formação de conexões neuronais no córtex pré-frontal — danos que não podem ser revertidos na vida adulta.

Aliança Estratégica: Comando Vermelho e Dissidências das Farc

De acordo com investigações, o fluxo do entorpecente pela calha dos rios amazônicos é viabilizado por uma parceria comercial e logística entre a facção brasileira Comando Vermelho (CV) e a Frente Carolina Ramirez, braço do Estado Maior Central — uma das principais dissidências das Farc.

O coronel do Exército da Colômbia, Carlos Rodriguez Contreras, que atua na repressão a esses grupos e coordena operações conjuntas com forças brasileiras, detalha como funciona essa engrenagem:

“A aproximação entre as duas organizações abarca a compra direta de drogas, garantias de livre trânsito pelos rios, proteção armada para os carregamentos, troca de informações de inteligência e coordenação logística pontual.”

Além do Comando Vermelho, outras organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), disputam espaço e mantêm operações na região de fronteira.

Crise Humanitária e Apelo ao Governo Federal

A escalada da violência, somada ao avanço do garimpo ilegal impulsionado pelas facções, tem gerado grave instabilidade para as comunidades locais e povos indígenas.

Diante do cenário crítico, uma coalizão formada pela Defensoria Pública da União (DPU), pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e por outras entidades civis solicitou formalmente uma audiência com o Ministério da Justiça. O objetivo do grupo é cobrar ações urgentes do Governo Federal para conter a violência, sufocar as rotas do narcotráfico e garantir a segurança das populações vulneráveis que vivem na vulnerável fronteira amazônica.

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