
Com a memória recente da perda de mais de 300 botos nos lagos Tefé e Coari, o Amazonas se consolida no centro das estratégias nacionais de adaptação às mudanças climáticas. Diante da ameaça de um novo El Niño “muito forte” e de extremos térmicos no Atlântico Norte, cientistas e ribeirinhos amazonenses articulam o projeto Lagos Sentinela da Amazônia para evitar que as tragédias ambientais e econômicas dos últimos anos se repitam no estado.
Liderada pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sediado em Tefé, a iniciativa monitora os parâmetros físico-químicos das águas dos rios Solimões e Amazonas. A vulnerabilidade dos lagos da região é o principal gargalo: diferente do leito principal dos rios, que mantém fluxo contínuo e maior profundidade, os lagos aquecem rapidamente e perdem oxigênio com facilidade, transformando-se em armadilhas para a fauna aquática quando os termômetros encostam nos 41 ºC.
Rede de proteção socioambiental no interior do estado
A tecnologia implantada nas calhas dos rios amazonenses opera em tempo real, gerando dados cruciais para a tomada de decisão rápida:
- Sensores automáticos: Medem temperatura e oxigênio dissolvido a cada dez minutos em diferentes profundidades.
- Estações meteorológicas: Registram vento, precipitação e umidade do ar a cada cinco minutos.
- Engajamento comunitário: Cerca de 50 comunidades ribeirinhas e escolas locais atuam na coleta diária de informações e na observação do comportamento animal.
Apesar de a engenharia ambiental não conseguir impedir o aquecimento das águas, a antecipação dos dados permite acionar protocolos de emergência junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As manobras incluem o resgate, a triagem e a condução dos animais para trechos mais profundos e resfriados antes que o nível crítico de oxigênio seja atingido.
Para as populações ribeirinhas do Amazonas, a preservação dessas espécies está diretamente ligada à segurança alimentar, ao abastecimento de água potável e à manutenção da pesca artesanal. A aliança entre o saber tradicional local e a ciência de ponta consolida o estado como referência em mitigação de impactos climáticos na Pan-Amazônia.


